terça-feira, 4 de junho de 2013

"Tenho orgulho de ser Policial!”, por Lili e Maria Auxiliadora Malagoni



Os colegas policiais, nos últimos tempos, me contam uma enormidade de fatos que até parecem pintados com tintas sombrias:

- A Polícia deveria estar melhor estruturada.

- Viaturas sucateadas.

- Plantões magros.

Sim, claro, somos junto com Polícia Militar o coração da Segurança Pública.

 “O plantão deve estar fortalecido”, digo isso com experiência de quatro anos no 24 x 72 horas.



Vale lembrar de que as prisões realizadas por nós e também pela Polícia Militar, somadas com a divulgação pela imprensa criam a sensação receio/medo nos candidatos a criminosos. 

Esse é o caráter preventivo da repressão policial.

Para que o cidadão que ainda é candidato a bandido desanime desse mister, a Polícia deve mostrar sua força com equipamentos à altura. Pois quando o bandido se sentir mais forte, a coisa pode se complicar.

Mas como estava dizendo as reclamações vem de cá e de lá, talvez porque seja uma boa ouvinte...

E esta que segue é a máxima:

- Prendemos, no entanto o Poder Judiciário solta.

Já fiquei sabendo de uma investigação de mais ano, que culminou na prisão de quadrilha, mas o Poder Judiciário concedeu a soltura dos presos logo depois.

Com isso: Policiais desmotivados e criminosos exitosos!

Outra: 

- Menores não são punidos com severidade! 

E assim, eles puxam o gatilho, como nós compramos pão. Isso mesmo! Pode banalizar. Foi essa a impressão que os delinquentes juvenis me passaram quando atuei em satélite de alta criminalidade.

E, para coroar a desdita, essa reclamação escuto todos os dias e merece ser debatida:

A estruturação de nossa carreira que não vem.




Há outras. Sim claro que há. E todas merecem ser debatidas e divulgadas...

Vejam só, numa tarde de intimação debaixo de sol, meu colega de trabalho, o Gabriel, mostrou-me que as paredes externas do Departamento de Polícia Especializada estavam  com a pintura bem ruim. Felizmente, dia desses, percebi que área externa das especializadas estavam sendo pintadas. (Ufa!)







TODA ESSA FALA JUDIA MUITO...

Mas, na verdade, eu só lembrei de tudo isso porque me surpreendeu uma postagem, com ar acalentador, da colega policial Maria Auxiliadora Malagoni, no Facebook. Suas palavras fizeram lembrar que sim

VALE A PENA SER POLICIAL!


Pedi seu texto emprestado, ela concordou em publicar no BLOG e segue:

" Hoje faz 7 anos que entrei para a Polícia Civil do Distrito Federal... Mudei-me de Goiânia, fiz novos amigos. Trabalhei muito, várias madrugadas "viradas". Muitos feriados e finais de semana sacrificados, mas sempre com certeza de estar fazendo bem para a sociedade. Esta é a recompensa para um Policial. Cada vez que conseguimos tirar das ruas um ladrão, um traficante, um pedófilo.. é uma sensação muito gratificante.  Tenho orgulho de ser policial, emobrece-me a alta missão!"

Maria, Parabéns pelos sete anos prestados à Policia Civil do Distrito Federal! Tenho certeza que você tem sido uma excelente Policial, mãe, mulher, e o que mais aparecer em seu caminho.



Por Lili e Maria Auxiliadora


terça-feira, 19 de março de 2013

Moda na Delegacia, por Lili


Depois de um longo tempo sem dar as caras no Blog, vou falar sobre a moda na Polícia. Isso mesmo! O mundo fashion dos corredores de uma Delegacia.

A história nos mostra que o homem predomina por aqui, nós, as policiais femininas,  precisamos quebrar estereótipos, provar que somos capazes, deixar um pouco da delicadeza, do romantismo em casa e provarmos a nós mesmas, ao delinquente, a nossa mãe e ao nosso chefe que somos capazes.  Mas, para isso, não precisamos nos masculinizar por completo. Dá sim para ser mulher, se vestir como tal e apresentar um bom trabalho na Polícia.


-  Que estilo cai melhor para a policial civil nas ruas e nos corredores da DP?


O tema veio à tona, principalmente porque estou assistindo ao Esquadrão da Moda (aos sábados no SBT e no Discovery H&H, 55 da net). No programa pipocam ideias de visuais adequados a cada situação. A participante escolhida se vê numa saia justa (ela foi indicada por amigos ou familiares para estar lá). Há uma transformação em seu visual proporcionada por alguns mils reais para gastar em roupas, contando a consultoria do casal apresentador do programa. As produções seguem o estilo formal/chique/clássico e fazem toda a diferença.


Mas como a policial feminina iria usar tais estilos?
Na polícia civil não há farda, como tantos me perguntam quando sabem da minha profissão.

Antes de discutir o que causa boa impressão no nosso ambiente, vale lembrar de um boato que surgiu em umas das DPs pela qual já passei. A rádio corredor espalhava que a Delegada-chefe proibira calça justa para as policiais civis na Delegacia.

- Ditadura da calça folgada?  

 Um dia de sol, no famigerado café – que, aliás, faz parte do serviço público, no sentido de que é, sim, nosso único ponto de interação entre os colegas e, porque não dizer, o momento de turbinar nosso ânimo por meio da cafeína - uma Policial, mostrando todo seu rancor insensato, pôs em xeque a moda das meninas na Delegacia:  

- Aqui na Delegacia a mulherada só usa “calça de feira”, disse em alto e bom tom e foi saindo....

 Bom seria se me servissem essas calças, com 1,77m, geralmente as calças vendidas na feira ficam um pouco curtas e blá-blá-blá. 
Blá-blá-blá não, o comentário da colega foi errante, sabemos da estagnada situação salarial de nossa instituição, não seria inteligente de nossa parte gastar muito com marcas famosas, porque,  afinal de contas, talvez, não sobre para  aquela viagem, ir naquele restaurante, ou para a educação dos filhos. Alguém já reparou nisso?

Que tipo de roupa nos cairia bem...




Para a Delegada de Polícia, acredito que há um facilitador, porque é praxe aderir a terninhos e saltos – o visual mais clássico - e se ela for mais operacional, ou para aqueles dias nos quais sabe que estará nas ruas, poderá contar com as peças caracterizadas da PCDF.

Mas, e para nós, as agentes?

Precisamos encarar com madureza. Terninho completo fica complicado, não tanto por causa do calor, quanto por estarmos invadindo o espaço fashion das Delegadas. Além do que, o serviço de rua pede um visual mais despojado.

 Evitando todo moralismo pseudo esclarecedor, não será por isso que nos restará apenas as calças justas, as cinturas baixas e as botinas (sejam da feira ou de marcas caras), podem ficar inadequadas para o serviço policial. 


Dito isto, recorri a um dos meus seriados policiais favoritos - Dexter - para conferir como a Debra Morgan (investigadora da seção de homicídios), irmã do malvado/herói se veste no ofício. E, pasmem: Só terninhos.
Essa atriz é bem magrinha e, levando em conta que na polícia investigativa dos EUA “os” agentes também usam ternos, além de o clima favorecer blêiseres; não foi no famoso seriado que encontrei a nossa resposta.

Um bom estilo de se vestir no ambiente de trabalho não será radical. Cada tipo físico favorece um trajar. Uma roupa que numa moça magra se adequa perfeitamente, sem mudar o foco do Inquérito para si própria; em outra, mais voluptuosa, pode ficar inadequada.

Talvez, a resposta, cada uma de nós encontre e, para ajudar, garimpei algumas dicas:

Calças “e” blusas justíssimas não ficam legais no trabalho (principalmente as duas peças juntas).

A próxima dica vem de uma noite chuvosa, quando assistia a um programa do Esquadrão no qual uma aspirante a assessora jurídica nos EUA, trajando  apertadas e fendadas roupas, faz uma verdadeira romaria de errâncias nos escritórios de advocacia, nos quais tinha interesse em trabalhar. Não conseguiu trabalho! Mas sim, cartões de visitas com convites para almoços e jantares. Após mudar freneticamente o estilo, a participante tornou-se Assessora Jurídica, entrou para a universidade de Direito no país dela. Ah, e também se casou.

Outras dicas:

As calças de alfaiataria e as jeans corte reto (de preferência escura e sem muita lavagem) não são chamativas e imprimem um ar de respeito. 

Talvez, como me opinou uma agente aqui da DP, essas calças fiquem "demais" para quem está numa  C
circunscricional de criminalidade alta. Afinal, é bem possível que precisemos pular um muro e há lugares, nos quais uma intimação casual pode, sim, se complicar. Na opinião dela calça jeans e camisa são curingas e o que faz diferença mesmo é a parte de cima.

Camisas também são interessantes para o trabalho, alertando para as que possuem ombros largos, não será uma boa ideia usá-la em cores claras e com mangas fofas. Lembrando a quem for se aventurar num blaser, aquele que tiver a lapela fina, diminui a largura do tórax. A parte superior dos bolsos devem estar na altura do osso do quadril.

Também vale lembrar que logo que entrei na polícia, estava na porta da  minha sala, usando um brinco de uns oito centímetros, quando uma colega  mais antiga passou, reparou e disse:

- Guarde esses brincos para uma festa, você poderá, numa luta corporal ter sua orelha rasgada.

Naquele dia pensei, quando que euzinha irei me engalfinhar com um meliante? Sim, na época em que tirei plantões, já me engalfinhei com um que não queria ser preso de jeito nenhum, mesmo estando em flagrante e felizmente, naquele dia, não estava de brincão.

 Então a dica é brincos pequenos para o dia a dia policial.

 Convém lembrar da Bolsa. Aprendi que vale a penas investir em uma boa e não em várias mais simples.

Algumas das peças que não podem faltar para a mulher elegante,  fora do ambiente de trabalho, no nosso caso:

Saia Lápis;

Um cardigan;

Um vestido bom que sirva para várias ocasiões. Para isso é importante que não seja nem muito curto, nem muito decotado e de tecido nobre. O modelo envelope é uma boa opção.

Pessoal, essa conversa foi sobre o nosso traje do dia a dia, é claro que em dias de operação ou operacionais estaremos caracterizadíssimas e com todos os apetrechos necessários, conforme algumas dicas na matéria TOAP – Treinamento Policial, aqui no blog.

É por isso que a vida é boa: ela recicla, muda e nos faz experimentar outros looks.

Deixe-nos um cometário!

 E quem tiver face e puder cooperar na divulgação do Blog basta clicar no ícone do Facebook, logo abaixo da matéria.

Lili


sexta-feira, 13 de julho de 2012

NÃO É ASSUNTO DE POLÍCIA, por Paty

O público de um modo geral não tem noção de qual é o papel da polícia e isso gera certo desconforto, porque a ansiedade por uma solução se frustra quando a resposta é “não é possível” ou “não é aqui”.
Naquele plantão deparei-me com uma dessas situações. Uma mulher jovem, bem vestida, assessorada por unhas artificialmente bonitas e indiscretamente vermelhas, mal se continha para ser atendida.
Eu percebi, solicitei que se sentasse e passei a ouvir sua queixa, a qual já foi acompanhada de lágrimas e tremedeira. Ela estava separando-se do marido, com quem tinha duas filhas menores. Por opção pessoal, parou de trabalhar – pois aguardava ser chamada para um tribunal da vida – E agora, em plena crise conjugal, dependia do ex-marido para comprar até um picolé. Mas eu ainda iria descobrir que ela tinha uma carta na manga: o cartão de crédito.
As tensões aumentaram, considerando que a separação não foi consensual. E o ex-marido não iria facilitar o desejo unilateral da mulher, que se viu obrigada a registrar ocorrência para apurar Violência Doméstica que teria sofrido; a famosa Lei Maria da Penha a amparava, mas não a separava e ela consciente ou não, ignorava essa limitação.
E foi aí que ela queria que a polícia agisse. Antecipou esse relato aqui compartilhado e eu tentava que ela fosse objetiva. Não julguem: é difícil ouvir problemas durante 24h seguidas, então o quanto a pessoa for direta melhor, cansa menos a mente, a noite inteira estava à frente e polícia não é de ferro...
Ela rodeou, rodeou e disse que o ex-marido precisava pagar o cartão de crédito que estava em seu nome... Veio até a delegacia, para que a polícia convencesse o homem a pagar a conta.
Expliquei-lhe, quando ela permitia, que aquilo não era assunto de polícia e sim uma questão da definição de pensão - Uma decisão do juiz em razão da separação junto à Vara de Família.
-A senhora já tem advogado?
-Tenho, respondeu.
-A senhora, através dos serviços do seu advogado, já deu início à separação judicial? É através do processo que será estipulada valores para seu sustento e o de suas filhas... nesse primeiro momento, vocês provavelmente vão pedir alimentos provisionais, devido à urgência e depois...
-Mas vocês não fazem nada? Ele não quer pagar meu cartão de crédito!
-Senhora a polícia não atua em questões financeiras de casal; se a senhora for agredida, xingada, ameaçada entre outras coisas, isso sim eu posso resolver, ou tentar.
-Ah! Já sei! Ele me ligou e eu não atendi. Não atendi por medo de ele me ameaçar. Acho que ele ia me ameaçar...
-Ele a ameaçou?
-Não. Acho que ia fazer, por isso não atendi.
- Querida, nós atuamos com o fato, não com o acho... Não é melhor a senhora buscar o meio eficaz de resolver sua questão: formalize sua separação com o auxílio de seu advogado, peça alimentos com um valor provisório... A proteção da polícia não resolve essas coisas...
                Essa orientação foi repetida umas três vezes e eu por fim tive que perguntar se ela estava me ouvindo, por que não adiantava falar.
                Foi embora da delegacia sem chorar e sem tremer – Estava mais calma, mas não convencida: a polícia tinha que fazer sua separação, definir visitas, partilhar seus bens, estipular o valor dos alimentos e o mais importante no momento: cobrar o pagamento da fatura do cartão de crédito. E vai alguém dizer o contrário...
Por Paty.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

NEM O PROCON DÁ JEITO, por Pay

                   Pode observar: não há local mais democrático que uma delegacia. Calma! Antes que chovam de protestos vou explicar: é o único órgão público no qual há uma autoridade pública disponível para receber toda e qualquer pessoa. Embora em alguns casos, haja a necessidade de se aguardar a vez, todos recebem atendimento. Sem exceção e mesmo que seja um Não.

                Democrática: recebe de tudo e a todos, não cabendo ao policial julgar as pessoas em suas ações, mas elucidar os fatos e vinculá-los às consequências jurídicas. Para julgar, não faltam candidatos: os que são de direito – Magistrados -, os que são de fato - a população - , a imprensa e eu mesma com meu íntimo juízo de valor, afinal ninguém é de ferro.

                E foi por isso que me chamou a atenção à indignação da imprensa nacional pela passividade do povo norueguês, frente ao julgamento de Anders Behring Breivik, aquele loiro de olhar estranho que trucidou a vida de setenta e sete pessoas, motivado por suas convicções lunáticas.

                No Brasil é bem verdade, que os julgamentos se tornam eventos midiáticos, onde as pessoas, deixando seus afazeres à parte, conseguem permanecer horas ocupadas em enxovalhar os Criminosos Pops do momento e trazendo trabalho à polícia, já que a escolta nesses casos é um problema sério de segurança. Quem não se lembra dos Nardonis ou dos irmãos Cravinhos em parceria com Suzane Von Richtofen?  Não sou a favor dessas manifestações.  Estou mais confiante no sistema calado, discreto e eficiente da Noruega. Talvez seja por isso que a população desse país não se dê ao trabalho de fazer justiça no grito.

                Pessoas são incríveis mesmo e por isso, também diferentes. É difícil mas necessário respeitá-las como são... Por isso, a delegacia continua sendo um local de expectativas: com o que vou me confrontar hoje?

                Ela chegou humilde. Olhou o ambiente e com dificuldade nos fitou. Rapidamente, talvez pela timidez, fez uma leitura de suas opções. Estavam à sua frente três homens policiais e eu e minha colega, as mulheres no grupo, estávamos sentadas já no extremo, as mais distantes de sua pessoa.

                Conversávamos animados e sorriamos por algum motivo que não me recordo. Mas era algo bem divertido, porque mesmo sem recordar o porquê, mas só de lembrar-me da cena, fiquei com vontade de sorrir... Nossa amizade, isso me recordo bem, era ótima, era muito bom trabalhar naquele grupo, naquele lugar.

                Quando percebemos sua presença, interrompemos o assunto e para o terror daquela mulher, todos a olhamos interrogando o que desejava. Ela por sua vez, buscou entre nós alguém a quem pudesse confidenciar seu atendimento. Aproximou-se devagar e ao olhar para nós mulheres, acenou com a cabeça que desejava falar-nos.

                Aproximamo-nos e os rapazes, ao perceberem a necessidade de discrição, proporcionalmente afastaram-se.

                Ela então nos contou sua aflição:

 - Eu me juntei com um rapaz, há cerca de cinco anos...
 - Sei. Expressei minha atenção.
- E ele tem estado comigo esse tempo todo...
- Hum... Afirmei.
- Mas de um tempo para cá as coisas mudaram...

 Ela mal levantava os olhos, pensei: está apanhando do marido e está com vergonha.

 - Ele maltrata a senhora? Fui de forma leve para ajudá-la a falar.
- Não! Não é isso...
- Ele bebe, não trabalha? 

- Não, não...
- Tem envolvimento com algum crime, uso de drogas? Problemas com seus filhos?

 - Não temos filhos. Não nada disso...Ele é trabalhador, boa pessoa, por isso gosto muito dele.
E quando meu repertório foi acabando e a mulher não dizia o problema, ela se superou:
- Sabe o que é? Quando a gente se juntou ele prometeu que sempre ia FAZER AQUILO comigo e agora passa muito tempo e ele não faz e eu quero REGISTRAR UMA OCORRÊNCIA, pode?

                 Uma empatia por aquela mulher me envolveu – Mas não nego: uma vontade grande de rir também. Achei-a inocente em sua pretensão e olhei minha colega e ambas sorrimos com ternura e voltamos para ela:

- Olha não há crime em ele não querer fazer sexo com a senhora. Aqui a gente trabalha com crime. E isso não é crime...

- Mas ele prometeu! Insistia a mulher, que estava convicta que isso era caso de polícia.
- Explicamos que isso era algo natural da pessoa e não uma obrigação imposta pela lei, ao menos no Brasil, não.

                 Baixou a cabeça, mas não se rendeu e questionou:
- E o PROCON resolve?

 Eu e minha amiga, em coro lhe desapontamos:
- Nesse caso, nem o PROCON dá jeito!

Paty

quarta-feira, 2 de maio de 2012

FAXINA, por Paty

FAXINA, por Paty


Entrei na polícia por querer mudar... Sou adaptável. Não vou mentir: não nasci sonhando em ser policial, sonhava (e sonho) mesmo em melhorar de vida, então não hesitei em fazer o concurso, mesmo com os mitos que rondam a profissão.
Hoje percebo que é real a necessidade de interiorizar o perigo e reconhecer que a morte pode nos fazer companhia quando a gente menos espera.
É o trabalho policial, é o ônus de prestar segurança para os outros.

As situações vão surgindo e, de inesperadas, passam a corriqueiras e você aprende a não se chocar mais. Mas houve um caso específico que muito me chamou a atenção...
Não ocorreu em situação criminosa, mas veio de um delegado chefe, com quem trabalhei.
Eu completara treze anos de serviço, desses, doze exclusivamente no plantão e, aproveitando o anonimato, vou confessar: gostei do plantão e sei trabalhar nesse ritmo, com suas inusitadas situações que requerem decisão de imediato; além do que não fico olhando para o problema, tento resolvê-lo, por isso, modéstia a parte: considero-me versátil...
Há pouco tempo o surgiu uma chefia remunerada para o plantão. Meu colega mais antigo de polícia, mas não de plantão, por iniciativa própria,  declinou do posto para mim, função essa  que eu, há alguns meses, lhe havia cedido... Porém,  o fato foi maldosamente ignorado pelo delegado chefe, que teve uma escolha duvidosa.

Resignei-me. Afinal sempre trabalhara no plantão, até recentemente fazia todo o trabalho próprio da chefia e quando surgiu a oportunidade de ser beneficiada - já que nunca houve qualquer compensação para as responsabilidades - , fui preterida por um colega que tinha dois anos no plantão, estava retornando à DP recentemente, de onde havia sido permutado por não se enquadrar nas expectativas da antiga chefia.
Faz parte. Senti-me humilhada, triste e sem estímulo. Continuei trabalhando e sendo requisitada da mesma forma, mas a minha insatisfação transpareceu e com ela os limites foram impostos.
O delegado, responsável pela escolha, sabe-se lá o motivo - talvez pelo constrangimento de uma decisão tão sem critério -  passou a ignorar-me, acredito para esquivar-se uma possível justificativa.
Não me dirigia à palavra, não me olhava.. O serviço e os dias fluíam... Nada estranho, já havia trabalhado com pessoas diferentes, passionais, emotivas, mal educadas, estranhas entre outras, mas o que viria a seguir iria se tornar a novidade.
Ele aproximou-se e, como de praxe, olhou para meus dois colegas e os cumprimentou, para mim, deixou o silêncio.  Então fitando a mesa do plantão, a considerou bagunçada:
- Oh! Pessoal, arruma essa mesa! E falando sobre mim para os outros dois policiais, soltou a pérola:
- Chama a colega ai e pede para ela dar uma “faxina” na mesa, ela tem mais jeito com isso... Ao tempo que ele saía sem constrangimento, eu demorava a acreditar no que havia ouvido.
Então vi um sorriso maroto, sem maldade no rosto de meu companheiro e tive certeza do que havia ocorrido...
Para limpar as coisas eu sirvo, para ter meu trabalho reconhecido e para receber uma gratificação não!
Foi inevitável, passei a comparar-me com os demais policiais. O que me falta? Concluí: sou mulher... Para alguns em seu mundinho, estou fora de seus critérios.



                     Paty.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUERO O CACHORRO DE VOLTA, por Paty

                Não suporto covardia, fico abalada e entristecida. Penso que as pessoas, em sua superação para o que não presta, voltaram sua atenção para os animais, que estão sendo continuamente reféns de maus-tratos.
                Lamento profundamente. É de se lembrar do caso de três cachorros, cujo dono faleceu e seu filho passou a cuidar, ou melhor dizendo, a abandonar oficialmente os mesmos ao relento - na chuva, ao sol, com água imunda, comida podre -  e depois de um tempo, com a morte de um deles, mantendo os outros dois com a carcaça.
                Como se não fosse o suficiente, cachorros são arremessados contra paredes, arrastados por motocicletas e carros, enterrados vivos, mutilados, lançados de apartamentos, esfaqueados e enforcados. Os animais silvestres contrabandeados são colocados em caixas, canos, tubos onde mal podem respirar, se mover e  se alimentarem e têm até seus membros quebrados para se adequarem ao recipiente.
                Faz parte do meu trabalho lidar com essas coisas terríveis. E eu trabalho mesmo. O que não ajuda é a lei de repressão a essas condutas perversas, que é branda demais.
                Era um dia em Janeiro e como chovia, naturalmente houve uma queda de energia na região. O portão elétrico de uma das casas abriu-se e, sem noção, fugiu da casa um cachorrinho da raça York Shire - daquele mesmo que a enfermeira jogou e jogou contra a parede na cidade de Formosa.

                Um rapaz em uma caminhonete perseguiu o pequeno e tomando-o, ia saindo, quando foi advertido pelo síndico:
- Esse cachorro tem dono, pertence ao rapaz ali da casa, cujo portão abriu devido à pane pela falta de energia...
- É. Esta aqui meu telefone. Depois eu entrego para ele...
                Percebendo que aquela atitude não condizia com o interesse de entregar nada para ninguém, o síndico prontamente anotou a placa do carro.
                Não demorou muito e o responsável pelo cachorro saíra a sua procura, quando foi informado a respeito do que ocorrera.
                Chegou à delegacia e relatou o caso, que descreveu como besteira, mas sem negar:
- Quero o cachorro de volta! Direito seu, pensei. O atendimento não era meu então passei a acompanhar, ouvindo.
                Meu colega prontamente levantou dados sobre o carro. Bingo! O fulano de tal residia distante e no intuito de ajudar, pesquisei ocorrências com o nome da criatura... Sem surpreender, o sujeito já era freguês, incidente em alguns artigos que condiziam com sua atitude dissimulada, ao saber que o cão tinha dono.

                Mas isso não foi nada. Ao ser contatado pelo telefonema do meu colega, o sujeito investiu-se de uma razão, que somente pode ser invocada no direito brasileiro. Argumentou que o rapaz reclamante não podia comprovar que era dono do cachorro e que o mesmo estava abandonado – dentro de um condomínio -  e que ele somente devolveria na manhã seguinte.
                O responsável pelo cachorro ficou perdido e eu fiquei indignada:
- Diga para esse sujeito que ele está com algo que não lhe pertence, que você está falando da delegacia e é para ele entregar o cachorro agora – Balbuciei para o meu colega que estava na ligação...
                O sujeito, percebendo a descrença na voz de meu colega, não hesitou:
- Não vou, só amanha.
                O rapaz ficou com o olhar meio que perdido. Aqui não é a polícia? Como é que o sujeito diz não e nada acontece... Uma interrogação saia de seu olhar. Eu, porém, fiquei aliviada quando a ligação caiu – ou o cara desligou - e meu colega passou-me a situação, pois ele precisava  se ausentar.
                Tomei o telefone para novo contato, quando o sujeito ligou. Atendi e continuei o assunto. Ele perguntou pelo meu colega e eu o informei que o caso seria tratado comigo e comecei:
- Senhor, traga o cachorro agora, estamos esperando por ele na delegacia...
- Amanhã devolvo, estou na Asa Norte (uma cidade da região).
- Negativo. Ou traz aqui ou a gente vai buscar.
- O cachorro tava na rua, não é de ninguém. De onde ele tira razão? Pensei...

- Olha moço, você já foi informado de que o cachorro saiu devido uma pane no portão. O síndico do condomínio advertiu de que o cachorro pertencia ao vizinho e ainda assim você entendeu que deveria levá-lo. Estou falando da polícia, ou seja, não estou brincando. Você está com a posse de um bichinho que não lhe pertence e o dono está aqui, reclamando por ele, o que mais o Senhor precisa saber?  Qual é sua intenção em relutar na entrega desse animal, que não lhe pertence?
                Eu tentava levar o homem na conversa, mesmo com autoridade. Eu exigia dele, mas no fundo, eu precisava que ele entregasse o cachorro, pois estava sozinha na DP e naquele momento, não poderia ir buscá-lo, embora eu tivesse toda a disposição de ir posteriormente. Pensava também em evitar um mal maior contra o animal como forma de retaliação.
                E assim foi: Não levo. Traz! Não vou. Vem! Caso não vier eu vou buscar, enfim: o sujeito abriu que se encontrava próximo; disse que estava sendo coagido – por entregar algo que não lhe pertencia e ameaçado – pois íamos a casa dele, ou deveria apresentar-se na DP – Direito brasileiro dá essas possibilidades...
                Depois de muita fala, ele se dispôs a entregar o cachorro no condomínio do rapaz, com quem combinei se ele não entregasse, uma ocorrência de Furto caprichada seria registrada.
                E ele cumpriu. Depois de alguns minutos conheci o pequenino: um fofo, que me deu uma lambida na boca, eca! Gracioso como todo bichinho em sua função de nos dar carinho...
                O rapaz sorridente agradeceu-me. E fazendo menção a um cartaz na delegacia afirmou:
- Você cumpriu a sua missão. A noite mal começara, mas para mim, teve um final feliz.

Paty.