quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

QUESTÃO DE CONCEITO


Olá leitores!
Novidade por aqui:
O Dr. Miguel Lucena - Delegado, Jornalista e um tremendo Poeta - , presenteou o blog da policial com a crônica de sua autoria que segue abaixo:


QUESTÃO DE CONCEITO
Miguel Lucena – Delegado da PCDF e Jornalista

Liberalino, o Bedeu, saiu de Viçosa do Ceará ainda adolescente e veio morar em Brasília, na esperança de dias melhores.

Brasília é uma cidade que oferece grandes oportunidades, mas só para quem já acumulou conhecimentos ou prestígio político.  Aqui, o apartheid é visível: pobre e semi-analfabeto só conseguem emprego de terceira; analfabeto, nem se fala.

Depois de morar de favor em casa de parentes no entorno do Distrito Federal, Bedeu foi se parar na Invasão do Itapoã, hoje uma região administrativa encravada no quintal da cidade do Paranoá, onde conheceu Eliane, uma maranhense das  canelas grossas e peitos fartos.

 O relacionamento, completados 10 anos, começou a entrar em crise. Desiludido e cansado de tantas batalhas, Bedeu passou a beber um dia sim e outro também.
Ontem, no ponto de ônibus, Eliane e Bedeu – ela indo trabalhar numa casa de família e ele ajudar num boteco de ponta de rua, perto da rodoviária – começaram um bate-boca e a confusão foi parar na Delegacia da área.

- O senhor está preso em flagrante, porque chamou a sua companheira de afolosada e rapariga dos peitos moles – explicou a delegada de plantão.

- Quem mandou ela me chamar de ´bebo´? – retrucou Bedeu.
Há quem ainda aposte em reconciliação, na audiência judicial marcada para os próximos dias.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Retorno (in) Feliz, por Paty




                Inspirei-me no texto das férias da Lilian, então me deixe contar as minhas também...

                Férias são uma delícia! Duvido que alguém discorde. É muito bom curtir outras prioridades que não sejam a velha rotina de resolver problemas. Viajar, conhecer novos lugares, pessoas, sabores, realmente proporcionam  prazer que consola os sentidos e o espírito.

Mesmo se não tivermos a opção de viajar, curtir o ritmo diário em casa desacelerado, também é algo bom. Experimentar a tentação da preguiça e confirmar que ficar um pouco mais na cama não são pecados e, quem sabe, aventurar-se em novos desafios como o de cozinhar e perceber que seu fogão tem acendedor elétrico (e que não é difícil usá-lo), são benesses próprias das férias. Que venham as de 2012! 

Estava em Fernando de Noronha. Um lugar mágico por sua beleza e harmônico por sua natureza preservada. O local acolhe e apresenta a interação homem com a natureza, até certo ponto, dando certo.
               


O mar azul turquesa recebe o visitante com o aconchego da água morna e límpida, onde é possível enxergar o fundo a trinta ou quarenta metros.  Nesse vislumbre, fica fácil interagir com cardumes das mais variadas espécies de peixes, sendo anfitriões os famosos Sargentinhos – peixinhos pequenos, com três faixinhas em seus dorsos, que acompanham com curiosidade a movimentação na água.

             Com os raios de sol penetrando a água, é possível ver as Sardinhas em sua beleza prata, refletindo de maneira interessante em vários pontinhos de brilho, ao tempo que Arraias passam nadando, ou quem sabe voando, sob nossos corpos, em movimentos suaves. O mergulho não terminou e, próximo às rochas, é possível ver a silhueta flexível de um polvo que muda sua cor conforme o ambiente, reservando uma surpresa conforme a coloração da rocha ou vegetação que resolve visitar.


Tem mais... As tartarugas marinhas, enormes e proporcionalmente dóceis, que se alimentam em grupos , como se estivessem em uma mesa de jantar, lançando por ora, apenas um olhar curioso a respeito do visitante. Sem esperar, surge um Cação – filhote de tubarão -, com seu olhinho em fenda na cor amarela, não fugindo a regra, curiando o que se passa.

                Os maiores também aparecem imponentes e, inevitavelmente, aceleram os batimentos cardíacos, mas é besteira de turista, porque os tubarões estão interessados mesmo é nos peixes, em sua grande variedade e quantidade não é problema em Fernando de Noronha...

                O passeio de barco é outro presente que a natureza proporciona.
À medida que somos envolvidos pela beleza da formação rochosa da ilha, os Golfinhos vêm encantar com suas piruetas e vão acompanhando o barco... É lindo e emocionante! Que vontade de mergulhar com eles, mas em nome da preservação, está proibido e está certo. Somos estranhos àquele ambiente, trazemos agitação e barulho, e ninguém vai gostar de intrusos trazendo isso para dentro de suas casas.

                Quando na água, pode-se ouvir os Golfinhos se comunicando com seus silvos que se propagam criando a expectativa: vão surgir a qualquer momento! E não é que apareceram mesmo! São grandes, nadando em formação: as fêmeas com seus filhotes, escoltadas pelos machos jovens. É possível observar o olhar do animal, fitando você e por mais bonito que seja, é inevitável não se intimidar ao reconhecer que são selvagens, maiores e mais fortes que o ser humano. São também sociáveis entre si.

                Embora em férias, o sangue policial continuou na veia e, cada vez que ia a praia, observava: os pertences ficavam na areia e ninguém mexia. Após o período de mergulho, tudo estava lá. Carteira com dinheiro, cartões e demais pertences eram ignorados por nativos e também pelos turistas. Muito legal não ter essa preocupação.

Nas vias, pequenas e restritas, já que a menor BR do Brasil fica lá - com 8 km de extensão -, é possível reparar nos veículos estacionados com as chaves na ignição e ninguém se aventura em tomá-lo “emprestado”.
A pousada fica aberta a noite toda, com as chaves dos quartos dos hospedes – justo os ausentes - penduradas em um quadro bem visível, mas que não traz nenhum problema naquele lugar. Havia ainda na varanda uma televisão, onde se podia passar alguns minutos voltando ao continente, por meio das notícias, enquanto se esperava pelo grupo de passeio.

Paradoxalmente, no passado, a ilha de Fernando de Noronha funcionou como presídio, recebendo presos comuns e também políticos. Hoje é uma prova de liberdade, em todos os sentidos...


Em Brasília, deparei-me com a greve e mudanças... Mas isso é outra história, infeliz por sinal.



Paty.

sábado, 5 de novembro de 2011

De férias da Polícia, por Lili


De férias em outro Estado, a inspiração foi para falar da viagem mesmo.  Os leitores conhecerão algumas impressões sobre este paraíso. 

Assim, graças ao acaso, desta vez meu espírito aventureiro me levou a Bonito, no Mato Grosso do Sul e pude entender porque o adjetivo deu nome à cidade.



Bonito é bonito mesmo, desde os telefones públicos em forma de animais da região, passando pela natureza, até o sorriso e receptividade dos bonitenses. Talvez, um filho mais novo de Búzios/RJ, mas ostentando ares de cidade pequena.





A cidade dos peixes e seus arredores merecem ser contemplados sem pressa. Desvendar seus tesouros a perder de vista proporciona à alma espetáculos que se inscrevem para sempre na lembrança.

Cidade pequena, nova e bem cuidada. Mais graciosa à noite do que de dia, porque a maior parte de seus habitantes temporários (os turistas), neste período, estão escarafunchando por algum espetáculo da natureza.

Lá o viajante é bem mimado, há aquela curiosidade - típica de cidade pequena - em relação a tantos estrangeiros, mochileiros e turistas de todos os tipos. Basta entrar num comércio e lá vejo o proprietário garboso e a pergunta  logo vem: - De onde você é?

Percebi que muitos donos de lojas e restaurantes deixaram suas cidades para fazer vida por lá, como dono do Restaurante da Vovó, que tive o prazer de bater um papo.

Sabe, no primeiro dia a gente fica meio abestalhado... tantos cartazes alocados na agência de turismo dentro do hostel onde estava hospedada (não está sobrando um “s”, é hostel mesmo = Albergue da Juventude, com direito a piscina, cozinha coletiva asseadíssima, funcionários bem preparados e todo tipo de acomodação); voltando aos cartazes, me embaralhei com aqueles trinta e tantos passeios existentes. Por isso, aluguei uma bike, a recepcionista me deu um mapa e rumei para o Balneário Municipal - mais ou menos 9 km (ufa!) só de ida - passei pelo centro da cidade, onde deparei com esta bela obra de arte que representa a principal beleza e riqueza da cidade.


Pedalando pelo centrinho, resolvi entrar na agência de turismo Ar, deixei a bicicleta na rua - sem receio algum - e comprei um passeio de Boia Cross para rio que passa pelo Parque Ecológico de Formosa.

Mais tarde, o dono Hostel, Sr. Luiz Octavio, contou-me que a proprietária de lá é uma lúcida senhora, contando com seus 90 anos de idade. Há uns 20 anos, ela demandou na justiça no intuito de conseguir que a construtora que deixara um buraco em sua propriedade,  direcionasse a água do rio, de modo a transformar a cova num lago. Venceu! Lago que virou cartão postal.


Enquanto descansava do frenético boia cross, um rapaz comunicativo aproximou-se e contou-nos que deixara seu país, Argentina, e estava bem satisfeito por lá. Ele é o idealizador de um passeio radical e ecológico: “O Bike Lobo Guará”.

0s peixes foram as estrelas do espetáculo na flutuação do Rio da Prata. Na fazenda que abriga o rio, tudo é organizado: caminhões pau de arara, barco de apoio e almoço caseiro.

Quem flutua somos nós com roupa de neoprene e cara afundada no rio, quando um novo universo se apresenta numa grandeza que encanta, o fundo do rio oferece à vista sua rica biodiversidade, e não estou falando de peixinhos, a maioria deles com mais de 30 cm.

O Kiko, nosso guia, teve a argúcia de com poucas palavras transmitir tudo que precisávamos saber. Entendemos que não se desesperando tudo daria certo. O rio em sua maior parte não dá pé, então é necessário calma para flutuar, não precisa saber nadar porque a tal roupa especial contribui para a flutuação.  

À noite fui provar o pastel de carne de jacaré. Conversei com a proprietária que me explicou que há uma política na região no sentido de substituir a carne de peixe pela de jacaré.  

Se algum artista ou sonhador se perdesse nas entranhas da Caverna da Lagoa Azul perguntaria por que capricho aquela lagoa jaz no fundo da caverna, onde acredito que inspiração viria. Perguntei ao guia se poderia passar uma tarde lá escrevendo.  Ele respondeu que não.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Medico, a Polícia e a Religião, por Lili



É por isso que a vida é boa, tive uma conversa com um médico daqueles que dá gosto de trocar uma ideia.

Perguntou-me se já havia assistido a Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles (Cidade de Deus), baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago (prêmio Nobel).
Respondi que sim, e que na época passei um baita medo no cinema, uma vez que fui só, e a película é de uma densidade psicológica  que merece ser observada mais de perto.

O longa exibe com mordacidade uma história insólita, na qual os habitantes de uma cidade vão se tornando cegos. Nesse contexto, o filme acompanha as agruras de um grupo de pessoas que foram remanejadas para uma espécie de galpão, reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos.

 Nesse caos, a capacidade para o mal do ser humano toma proporções inimagináveis.  Mesmo condoída com o sofrimento, saí da sala louvando o diretor pela força e imaginação criativa do filme.

Voltando ao bate-papo com o Dr. Alexandre - tratava-se de uma consulta médica mesmo - ele disse-me que a maldade dos personagens do filme seria a verdadeira faceta da sociedade quando não há regras: mulheres violentadas, pedágios cobrados mesmo sem ter no que usar o dinheiro e por aí vai...

O leitor pode pensar que a trama de Ensaio sobre a Cegueira é pura ficção, mas fazendo um paralelo com o filme nacional Anjos do Sol, de Rudi Lagemann, onde meninas adolescentes são violentadas e até mortas em um prostíbulo no garimpo brasileiro, fico perplexa em constatar até onde o ímpeto cruel do ser humano pode chegar; e olha que nesse longa houve pesquisa no sentido de retratar com veracidade os fatos.
Adolescentes que atuaram em Anjos do Sol após muitos testes. Ah, sim, elas não eram atrizes.

Conversa vai, conversa vem, o Dr. Alexandre fez o comentário que rendeu esta matéria:   
“A polícia e religião fazem toda a diferença, no sentido de funcionarem como um freio para atrocidades humanas como as que vemos no filme do Meirelles.”

Pelo sim, pelo não, sou policial, e achei superinteressante a colocação dele.
Discutir religião conduz a acalaroda polêmica que se desdobra nas mais desencontradas direções, mas confesso que até então, pensava que a religião somente seria útil por seu fator agregador social e para acalmar os corações daqueles que acreditam no seu cantinho lá no céu, fora isso, lorotas.


Pensando melhor, não, não é só isso, a religião tem o seu lado positivo, assim como a polícia, reprimindo e contendo ânimos exarcerbados.

Seria bem melhor que as vilezas de Anjos do Sol e Ensaio sobre a Cegueira só tivessem espaço na telona.

Lili (P6)

condoído: que toma parte na dor alheia. Compadecido.
mordaz: que morde. Mordente, corrosivo. Satírico.

insólito: extraordinário, desusado, fora do comum

firula: floreio, rodeio, uso de palavras ou construções desnecessárias.




quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FLAGRANTE NA DP, por Paty

               

Plantão é surpresa e enfrentá-la com três agentes de polícia é pesado. Por mais tranquilo que seja o dia, a noite não perdoa, ela suga, quase nos vence. Quando na madrugada, passam as duas horas e meia de vigília com o silêncio e a expectativa do fator surpresa, dou-me por superada.


                Somente quem vivenciou o transcorrer de doze horas, após um dia de trabalho, sabe o peso que os minutos têm sobre nós, até o dia amanhecer... Mas é isso. Se eu não fizer outro fará, afinal, as frases já são conhecidas: “não tem pessoal”, “o plantão não é prioridade” - fato que ninguém admite claramente -, mas que é consenso velado; embora seja o cartão de visita da delegacia e blá-blá- blá...


                Presa pelo anonimato, sem rosto definido, fico mais livre para escrever e também errar, por que não? Mas vou arriscar um pouco.




No último serviço, dois de meus colegas tiveram que se ausentar para apresentar um menor infrator na delegacia competente. Por questões matemáticas, não teve jeito: fiquei só e era início da noite.



                Não havia novidade até a Polícia Militar apresentar um casal, cuja jovem não parava de chorar e ostentava um barrigão próprio dos nove meses que completara. O rapaz, transtornado, mal conseguia balbuciar as repostas:


- Seu nome? - Trabalha? - O que você pretende?


                A moça não dava trégua no choro e eu precisava trabalhar. Então insisti:


- Querida, você precisa me ajudar, quero saber o que ocorreu? Você tem que me contar para eu saber o que fazer...


               Há muito custo, após uma sessão de vômitos, pensei: bombeiros! O neném vai nascer aqui mesmo. Mas não, foi alarme falso. O bom é que eu estava fria no procedimento, não fiquei nervosa. Gente, depois de algum tempo não tem jeito, a maturidade policial chega e você vai se superando diante com as situações... E ela me contou estar vivendo como o rapaz há nove meses,  - suponho desde a gravidez - ele a trouxe para viver em outra cidade, deixando para traz três outros filhos menores que residiam com a avó e, naquele momento, a discussão se iniciara por que a avó iria viajar e a mãe estava sendo chamada para cuidar dos outros filhos, fato que não agradou o companheiro, que avisou:


- Se você sair de casa, enfio uma faca na sua barriga!


E estava lá a situação. Agora eu entendia...  Voltei-me para o rapaz e perguntei:


- E ai? E ele disse:- A senhora tem filhos?





- Não é esse o caso, quem faz as perguntas aqui sou eu, cortei-o. Afinal quem estava trabalhando ali era eu, só me faltava ter que responder perguntas... Ele limitou-se a dizer:


- Para a casa da mãe ela não volta, com filho meu não...


                Assim mesmo. Determinado, ele em poucas palavras confirmou sua ameaça, agora de maneira indireta. Eu pensava, momento em que minha avaliação sobre o tal casal foi interrompida por uma gritaria louca que vinha de passageiros de um coletivo em frente à DP.




Explico. Em frente à delegacia há uma parada de ônibus, daí a proximidade. E um sujeito maluco achou justamente ali um ponto para efetuar um roubo a coletivo, pode?! Pelo menos foi isso que umas cinco pessoas desesperadas, chamando por ajuda, davam a entender.


                E eu?  Tinha na minha frente um cara que pretendia antecipar a chegada do filho de uma forma não convencional e um roubo a coletivo em andamento. Quantos agentes éramos naquele momento para sairmos em segurança e em vantagem sobre o bandido e deixar alguém para cuidar das instalações da DP – onde pela natureza do serviço e pelo equipamento que dispomos, as instalações requerem o máximo de segurança?  Lembra-se? Éramos três, dois estavam na Asa Norte e eu sozinha com o rádio! Isso mesmo! Chamei a CIADE – para quem não sabe, trata-se de nossa central de atendimento e comunicação com as demais unidades da PCDF. Aquilo que é falado no rádio é copiado pela rede, que está sintonizada na faixa e no meu caso, faixa três. Meus próprios colegas, se não estivessem dentro da viatura naquele momento, não saberiam o que se passava... Estavam longe. Eu precisava de outro apoio.





                De imediato chamei prioridade pelo rádio. Quando ouvimos prioridade, quem está falando dá a preferência e permite que a prioridade se antecipe, os demais passam a prestar a atenção.


- CIADE DP chamando, prioridade... Situação de roubo a coletivo em andamento, uma agente de polícia com outra situação de ameaça e partes na DP, vou atender ao local, peço apoio.


                Deixei o rádio, de arma em punho, mandei que o autor não se levantasse – detalhe: minha algema tinha ido para a Asa Norte, mas com voz firme, mandei que não se levantasse e saí para saber o que de fato ocorria...


                Observei que alguns corriam em perseguição ao suposto assaltante, momento em que me assombrou a lembrança dos equipamentos na delegacia – arrepiei. O que fazer? voltei... O rapaz permaneceu sentado, e a moça, assustada, havia parado de chorar. Menos mal.


                Para minha surpresa, as poucas respostas que surgiram no rádio foram para informar que não haveria apoio ou deslocamento.


                Confusões em delegacia não me surpreendem. Lá é local natural de problemas e eu sei disso. O que me surpreendeu foi a falência do cuidado e da prontidão que deveríamos ter uns com os outros enquanto policiais; e eu afirmo que a falta de resposta não foi pessoal, quem copiava não sabia o rosto de quem solicitava ajuda, sabia apenas que era uma policial em situação de desvantagem e que estava nas proximidades. Onde trabalhei deixei amigos e as mudanças de delegacia, poucas por sinal, aconteceram como movimentação natural do trabalho.


                Eu prezo pelo anonimato. Ele me confere liberdade para escrever e expor minhas impressões sem maquiagem. Por isso, gente, não foi nada pessoal, foi mesmo institucional.


                O desfecho? Só eu estava e só as coisas se resolveram... Por enquanto.






domingo, 2 de outubro de 2011

Cachorros na Delegacia, por Lili

Veja só, quem imagina que na delegacia só lidamos com o crime se enganou, especialmente nas cidades menos violentas, é praxe chegar muitas confusões.  

Vejam esta comigo:

Manhã de domingo de Plantão – a mais tranquila da semana - eu estava no balcão da DP do Núcleo Bandeirante e, num repente, se aproximou um rapaz trazendo seu cão labrador pela guia. Estava atônito, vermelho, descomedido, segurava uma folha de papel na mão e esbravejava que estava dentro da lei e que ele e seus amigos tinham o direito de adentrar qualquer estabelecimento comercial...


 Nesse momento, alguns homens e mulheres, todos também trazendo cães pela guia, encheram o hall da Delegacia. Eram muitos falando ao mesmo tempo e poucos agentes presentes.  O caso já era meu, que dei o primeiro “bom-dia”.

Por fim, mas não por último chegou o dono do restaurante de onde toda aquela galera saíra. Seus olhos estavam assustados, quando furioso me explicou:

- Senhora policial, eu chamei a polícia. É um absurdo, essa cambada que está aqui adentrou o meu restaurante para almoçar, carregando toda essa quantidade de cachorros. Eu os proíbo, é antigiênico e irá assustar os outros clientes.

E continuou: -Eles estão dizendo que são cães para cegos, mas dá para perceber que eles enxergam muito bem.

Pedi silêncio e perguntei ao primeiro rapaz que entrara com o cão, e que parecia ser o líder dos demais, o que ele tinha a dizer:



- Pois eu já expliquei para esse senhor aí, mas ele se nega a entender e respeitar a lei. Somos um grupo de cuidadores voluntários de cães-guias da raça labrador. Os adotamos por um período, até que cheguem à idade ideal para passarem por outro treinamento mais específico para, posteriormente, servirem de cães-guias a deficientes visuais. Estamos estritamente dentro da lei. Além do que, somos orientados a frequentar qualquer estabelecimento comercial na companhia dos cães. Aliás, eles ficam com a gente justamente para isso. Nós ensinamos os animais a frequentar todo e qualquer lugar público para que, no futuro, guiem seus donos desprovidos da visão.
O rapaz apresentou a fotocópia de uma lei que trazia consigo para provar o que dizia e nervoso  continuou:

-  Hoje, combinamos  um encontro dos cuidadores de Brasília e viemos almoçar nesta satélite.

O proprietário, que meses antes tivera outro restaurante multado e fechado pela administração devido a reiteradas ocorrências de som alto, virou para mim e perguntou:

- Existe esse treinamento do qual ele está falando?

Respondi que existia. Já lera algumas reportagens sobre a adoção temporária desses cães por cidadãos e expus a ele o que sabia sobre o assunto.

Depois de algum tempo e muita conversa, proprietário entendeu a situação. Mas, mesmo assim, afirmou que iria voltar para sua terra porque em Brasília era complicado demais trabalhar. Ele pediu desculpas aos cuidadores e estes decidiram almoçar em outro local.  Antes de deixar a DP, ele virou para mim e disse:

- Mas a senhora deve concordar comigo que não precisavam ser tantos cães de uma só vez, não é verdade?

Sorri... amarelo.
Lilian Angelotti
 agente da PCDF




domingo, 11 de setembro de 2011

Treinamento Policial (TOAP), por Lili


 

Assim acordamos cedo com gosto. Digo isso porque turma do curso de TOAP - Técnicas Operacionais Policiais -, do mês de agosto de 2011, se voluntariou a participar. Estávamos na APC - Academia da Polícia Civil - em uma segunda feira bem cedo, para aperfeiçoarmos as técnicas utilizados no dia a dia de um “cana.”


 E o instrutor Dantas falou: “Quando estamos com uma arma alimentada nas mãos o diabinho atenta”, no sentido de que, num momento de distração, pode ocorrer um disparo acidental, enfatizando para as normas de segurança.



Confesso que no meu caso o “vermelhinho” intentou-me a não começar o curso:

A Academia é muito longe.

No meio desta seca?  Acho que vou morrer.

E ainda ter que trabalhar no período da tarde?

Mudar a cor dos joelhos para roxo;

Ralar os cotovelos;

Não tenho mais idade para isso e
blá-blá-blá...

A colega Sandra comentou que uma amiga viria para o curso, mas quando lembrou que teria que trabalhar à tarde, desistiu.

Pensando bem, os instrutores tinham operações e plantões e lá estavam, sempre atentos. Mas, quando a Aurilene, coordenadora do curso disse que, devido à mudança de sede da Academia, o próximo treinamento iria demorar, tudo me levou a, sim, querer participar. É seguro que, passada a seca, virá a chuva; depois final de ano ... carnaval ...




Um colega de seção comentou que há uma resolução do Ministério da Justiça afirmando que o tempo despendido em treinamentos deve ser considerado horário de trabalho.  Penso que esse tema enseja reflexões e iniciativas, pois essa benéfice - tanto paras os alunos quanto para os instrutores  -  aumentará a participação.


Os instrutores Zorato, Dantas, Da Mata, Alan e Eduardo, igualmente, o Israel e o Zedemar, do TIP, iniciaram as instruções, com a maestria típica da experiência e da dedicação à atividade policial.


O mestre ZORATO afirmou que o exercício de cumprimento de mandados em residências com resistência de meliantes seria o mais perigoso, devido ao risco de acidentes e seria o momento de aplicar todas as técnicas.


Sombrear um parceiro com arma carregada? Nem pensar, porque se fizesse, não tinha jeito, ficava na berlinda mesmo porque a turma toda pagava flexões.


“- Há alguém na turma inseguro para realização do exercício?” o instrutor fez a pergunta clássica, cuja resposta é sempre o silêncio.


O treinamento ainda mostrou que para nos aperfeiçoarmos na técnica não é necessário passarmos por situações vexatórias, como é praxe em treinamentos de algumas categorias.  Apesar dessa colocação, ouvi comentários no sentido de que os cursos na APC, de um modo geral, deveriam ser mais puxados (visão do colega, mas que merece nossa reflexão).


OBS 1  Poderíamos debater essa questão no comentário do Blog.

OBS2 Quem não sabe muito bem lidar com esse tal de blog: para deixar um comentário basta digitá-lo na caixa, escolher na guia “comentar como”, a opção “nome/URL”, depois escrever o nome (quem não tem URL, deixa em branco) e então clicar em publicar.


OBS 3 os “meninos” também são muito bem vindos ao Blog,  apesar de  eu assumir – depois que o colega Marcio observou - que nome o Blog está um tanto feminista.



Voltando ao TOAP

ALVOS DEVIDAMENTE FURADOS, adrenalina da trupe no alto.

Ir para casa? Ainda não.


Na APC/DF há a cerimônia de encerramento. A colega que seria a oradora faltou, devido a uma operação em sua base, então a coordenadora pediu-me para assumir o ofício. Esquivei-me dizendo que era afeita à palavra escrita e não à falada. E, na velocidade que é digna da fuga, indiquei o colega Cavalcante, o único Delegado do curso. Talvez por isso, ele não titubeou em dizer que eu é que deveria representar a turma.

Falei que a nossa jornada estava cumprida. Agradeci a iniciativa da Academia de nos proporcionar um curso no qual nos inscrevemos como voluntários, enfatizando que é diferente acordar cedo para realizar um treinamento escolhido por nós. Em seguida, afirmei que os instrutores, para mim, não eram professores, tampouco instrutores, mas sim verdadeiros anjos da guarda, tanto para nós, durante os treinamentos com tiro real, quanto para os cidadãos, devido nossa futura atuação responsável nas ruas.

Queria falar um pouco mais, fazer uma pilhéria, mas deu o branco, típico de quem não é acostumado ao microfone...

Faltou falar, me solidarizando ao desabafo do mestre Dantas, no sentido de que o policial que afirma aos colegas que as técnicas do TOAP não são aplicáveis na vida prática, é um irresponsável. Corremos o risco desse mantra ir se repetindo como  nas melhores técnicas de propaganda sem se saber, por fim,  sequer seu significado. Entendo que o policial inseguro em sua atuação, acabará imitando colega do lado. E no TOAP, aprendemos que cada qual numa equipe assume uma função.

FOFOCAS

-  O mestre Da Mata contou-nos que um dos instrutores, no horário de descanso do curso de formação, permanecia no dojô treinando seus mil tiros diários. Isso mesmo, 1.000 tiros a seco!

- Fiquei sabendo também que mulher não entra no DOE porque não dá conta do teste físico.


Além da técnica, foi bacana a troca de experiência, agregamos dicas quanto ao comportamento e à escolha dos equipamentos:



- Calça justa não combina com operações, bolsos folgados são essenciais;

- Lanternas pedem pilha extra;

- Uma faca ou canivete pode ser essencial. Já pensou, libertar um refém com as mãos amarradas com corda de varal, com emissoras filmando, e nenhum policial poder com presteza libertar a vítima?

- Salto-alto e brinco de argola também não combinam com operações policiais;

- Energia é essencial e não deve ser gasta sem necessidade, se der para não pular o muro, melhor;

- Verbalização em abordagem deve ser combinada e executada por apenas um policial;

- equipamento não se empresta, senão o outro não irá compor o próprio material. Foi mal colega Ribeiro, nessa época eu já havia emprestado sua lanterna...


O MURO

Turma reunida em frente a um robusto muro de concreto, construído exatamente para o treinamento. Papo vai, papo vem, e não deu tempo de pularmos o muro. Acho que só não deveria pular quem não se sentisse seguro para tanto. Depois soube que já houve ligamento de joelho rompido no exercício, daí a parcimônia.


Menção especial à xerife da turma, a Kátia, que em nenhum um dia deixou de nos proporcionar fita crepe, pinceis e sempre nos lembrava de assinar a esvoaçante lista de chamada.

O instrutor Alan falou que éramos vencedores por concluirmos o curso. Os mestres é que são porque nada passou despercebido aos seus olhos; eles possuem  conhecimento técnico surpreendente e sabem ser modestos ao transmiti-lo; obtiveram a participação da turma e corrigiram nossos vacilos.


Responsabilidade, atenção aos fundamentos da técnica, coleguismo e respeito às normas de segurança foi a verve da turma de
TOAP,  agosto de 2011.

Lili



trupe (francês troupe)s. f.1. Grupo de artistas que actuamatuam em conjunto. = companhia

verve (palavra francesa) s. f.1. Imaginação viva.2. Vivacidade ao escrever, falar ou conversar.

berlinda Figurado estar na berlinda: chamar a atenção sobre si.

titubear -

v. intr.1. Falar hesitando (por não saber o que dizer ou para não se contradizer).2. [Figurado] [Figurado] Vacilar, hesitar.