quinta-feira, 26 de maio de 2011

FILME PORNÔ, por Paty


Trabalhei no Plantão, seção que, geralmente, não atrai as garotas. E eu fugindo à regra, amava trabalhar nesse ritmo. Talvez por isso, estive durante alguns anos, como a única mulher em um grupo de quatro a cinco rapazes... Sem contar o Delegado, que adivinhe? Muitas vezes era homem.
 Nesse ambiente, era natural que qualquer presença feminina, chamasse a atenção... Então arrepiem colegas! Vou entregar: saibam mulheres que eles, sem constrangimento algum, reparam mesmo em toda e qualquer uma que aparece.  Não é maldade, mas, natural.

Notam em primeira mão o que é feminino e caso seus neurônios confirmem a suspeita o resto é reação em cadeia: se é alta, baixa, magra, gorda, se fala muito, pouco, e se sabe falar, se é loura, morena, negra, ruiva ou oriental, se é jovem ou coroa, se está bem vestida, mal vestida ou semivestida, se é feia e sobre tudo: se é bonita.

Crueldade? Não, nem tanto. Pense com imparcialidade e verá que a observação nos é algo nato, a diferença talvez, esteja no fato de que a mulher é mais discreta na reação ao que percebe.
Alguns têm a indelicadeza de fazer comentários, transparecendo um sorrisinho típico do Lobo Mau que pressente a indefesa chapeuzinho.  Acordem rapazes! Chapeuzinho sim, inocente não mais.
Mas isso não é regra, acontece com poucos e considerando que os valores vêm do berço, não atribuo tal comportamento ao Policial em si, mas a uma questão de pura educação.


Havia um lema para quem trabalhava no Plantão: o que acontece no Plantão fica no Plantão e se resolve lá mesmo. Esse pensamento denotava a confiança entre o grupo e sabíamos que, se algum problema ocorresse, era ali entre nós, que deveria ser resolvido.
Fato é que estava cercada por quatro agentes e um escrivão vinte e quatro hora e a cada três dias e eu me divertia com eles. Nossa equipe era descontraída e tínhamos amizade. Naturalmente, não vou mencionar os nomes - mas me coço de vontade! Vou tratá-los pelos perfis diferentes que cada qual se mostrou para mim. Havia o “Boa Praça”, o “Mal- Humorado”, o “Cavalheiro”, o “Calado” e o “Indiferente”, que de nada participava - mas não menos importante.

Considero a noite o período mais difícil em um Plantão. O corpo pede trégua, quer descansar, quer dormir, quer ir embora e ignora o fato que a mente sabe e manda você se manter firme, pois o trabalho está só na metade.

 Acontece que para azar do corpo, a noite é morosa, passa contando os minutos e você, na madrugada, percebe que paulatinamente, com preguiça, os segundos se arrastam porque também estão com sono e as horas são empurradas e cada um cumpre o seu papel e finalmente o dia chega e com ele o término do Plantão.
Eventualmente,  quando as madrugadas passavam sem ocorrências e não havia atendimento, a nós, sobrava à companhia da televisão.
E foi por isso que descobriram aquele programa. Os rapazes passaram a vasculhar a grade da programação na busca de algo interessante e não é que os infelizes descobriram que lá para as tantas, um determinado canal passava filme pornô.  Eu, única mulher na equipe, me vi numa situação constrangedora, não que eu seja conservadora, mas modernidade tem limite e roupa!

A noite se adiantava e meu suplício, embalado nos gemidos, começava:

- Gente vou me deitar! Comuniquei sem muita convicção; minha falsa tranquilidade expressava a vontade que eu estava de esganar um por um – e olha que eu amava trabalhar com eles, mas aquilo era desleal!
- Que é isso linda! Disse o Cavalheiro;

- Está cedo, limitou-se o Mal- Humorado;

O Indiferente estava e indiferente ficou; o Calado me olhou como perguntando porque e balbuciou alguma coisa que não compreendi;

- Não amiga... Fica ai, vai agora não, você vai descansar mais que a gente e é injusto, argumentou o Boa Praça, que naquele momento seria um perfeito Cara de Pau e sorria quando recebeu meu olhar de expressa desaprovação...
- A não gente! Vocês ficam aí assistindo filme pornô e eu sou obrigada a permanecer aqui entre vocês, não dá não, vou descansar, então muda de canal para algo mais democrático: muda ai pro Pânico que as meninas estão mais vestidas! Saco! Acha um canal que me agrade também poxa!
- Que é isso, bobeira, fica ai com a gente e não liga para a televisão... A solução foi unânime e por mais estranho que pareça, eles falaram sério.

Minha mente trabalhava: como vou me livrar dessa enrascada sem me tornar chata e antipática na equipe; buscava uma solução, afinal o plantão se aproximava e a segunda sessão do Cine Privê poderia acontecer...

Eu pedi sabedoria, e ela veio.

No plantão seguinte, a madrugada entrou e com ela a o vazio e a tranqüilidade chegaram na DP. Não havia nenhum atendimento a ser prestado, dada a avançada hora, então a televisão convidou para a programação do dia. Cada qual tomou sua cadeira e conversavam sobre coisas corriqueiras, e eu, pressentindo o que viria, queria matá-los à traição, de forma qualificada...

-huuummm...

Ninguém dava um pio e nem piscava, e eu agora de homicida, passei a suicida e pedia para morrer.

Até que me veio uma luz:

- Você tem filha? Falei olhando para o Boa Praça, primeiro da fila.

- Quê? Sem virar a cabeça. Insisti: - Você tem filha?

-Sim, essa me foi a resposta redentora;

- E você tem filha? Perguntei ao Mal- Humorado;

Ele me olhou, certo de que eu sabia a resposta e emburrado, respondeu que sim;

- Você também tem filha? Essa foi direto ao Cavalheiro, que não hesitou e respondeu que sim;

A essa altura dos meus questionamentos, todos já haviam dado uma trégua à televisão e se voltaram para mim, senti-me a dona da situação;

“- Espera aí raparigas que vou acabar com vocês!” Pensei.

O indiferente novamente não fugiu à regra. Não importava, se não ajuda não atrapalha, e ele também não tinha filha então que ficasse invisível mesmo.

O silêncio pairou e foi quebrado pelas moçoilas na TV.

“- hummmm...”

- Por que? Sem se conter, questionou o Cavalheiro.

- Por quê? Fizeram coro os demais.

- Porque eu espero que nunca, nenhuma das filhas de vocês, tenham que passar pela situação que eu estou passando, respondi.  De leve, com a alma lavada, retirei a luva de pelica com a qual eu os atingi, sentei-me junto ao grupo e dei uma espiada na sirigaita que gemia na televisão...

Cada um vestiu a carapuça e se entreolhou; - Tá certa.  A Paty está certa, foi o que dizia o Cavalheiro, enquanto pagava o mico masculino coletivo e mudava o canal da televisão.

Eu? Ah! Eu ganhava, ali solitária, o prêmio pela redenção feminina naquela equipe...

E as garotas da madrugada? Não mais se ouviu um pio delas naquele plantão...



Paty








sábado, 21 de maio de 2011

Quem é Paty?


Quem é Paty ?

Patrícia é Agente, integrante dos quadros da PCDF há doze anos e, nesse tempo, sempre atuou no regime de Plantão, no balcão em uma das Delegacias da cidade.

 É brasiliense, com quase quarenta anos. Tem um amor - com quem decidiu compartilhar a vida -  ; gosta de coisas simples, desde uma boa conversa, uma gargalhada espontânea ou até um choro sincero... Não dispensa uma viagem e sacrifica uns quilinhos pela cumplicidade que tem com o chocolate.

Acredita nas delícias da boa mesa e na satisfação que acompanha a amizade, pensa que todo começo vale a pena e que as pessoas são fontes de informações surpreendentes.

Quando na polícia, viveu na pele ser mulher em um domínio masculino; teve que conciliar o feminino, a função e a pessoa - uma fusão que lhe trouxe uma postura por vezes fria no trabalho, mas não menos humanizada e sabendo observar circunstâncias e pessoas, atentou para fatos engraçados, muitas vezes inusitados, mas que se mostraram inesquecíveis e interessantes.

De tão interessante, decidiu compartilhar as estripulias da rotina policial, sob a visão de uma mulher.

Leia, reflita, divirta-se e opine.

Em uma dessas opções você se enquadra: sem trocadilhos.

Muito prazer, Paty.




quarta-feira, 18 de maio de 2011

NOIVO PRESO NO DIA DO CASAMENTO, por Lili


Hoje estou num local propício para escrever casos policias - no restaurante Departamento de Polícia Especializada. Encontramos muitos colegas Agentes, Delegados, Peritos e Aposentados por aqui, num ambiente agradável.

 No DPE funcionam, por exemplo, a CORVIDA – Delegacia Especializada em Homicídios; a DRFV - Delegacia Especializada em Roubo e Furto de Veículos; a DPCA – Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, além de muitos outros departamentos viscerais para a PCDF – Direção Geral, IML, IC, etc.

Mas deixemos, por ora, toda essa estrutura.

Aqui está tranquilo, estou no anexo do restaurante e tem sombra. Invadiu-me a mente mais um caso no qual atuei na época em que tirava Plantões.

Venham comigo!

“A FESTA DE CASAMENTO QUE ACABOU NA DELEGACIA”

O título lembrou uma Festa Junina?

Apesar dessa história ter ocorrido no mês de junho, não foi o caso. Em Brasília, nessa época, os dias são quentes e secos e as noites frias e, naquela madrugada, compúnhamos uma equipe com poucos agentes. Tudo normal, até que a Polícia Militar, como é de praxe, adentrou a DP conduzindo uma confusão. Quando eles chegam, com suas fardas equipadíssimas; armas longas; e andar determinado, causam um certo frisson nos cidadãos que estão por ali registrando uma ocorrência de extravio de documento, um acidente de trânsito, etc. Até os agentes precisam de alguns minutos para acalmar os ânimos e entender do que se trata.

A princípio, parecia tratar-se apenas de um crime de Lesão Corporal porque  os policiais conduziam um rapaz com ferimentos. Pouco tempo depois, outra viatura trouxe mais um envolvido, um homem elegantemente trajado.


Nossa equipe foi informada de que os participantes da briga estavam numa Festa de Casamento mas, quando o rapaz trajando terno recebeu seu veículo, conduzido pelo manobrista, o carro veio com uma avaria com a qual o proprietário não concordou. O manobrista retorquiu, dizendo que o amassado já estava lá e que ele não tinha nada a ver com aquilo. Bastou para as adrenalinas subirem. Começou uma luta corporal com direito a socos e pontapés.
 Algum convidado telefonou para a Polícia Militar.
Pasmem! O rapaz de terno era o Noivo e foi conduzido à DP em uma viatura; igualmente, o manobrista, em outra.

A PM atua em situação de flagrante: (“flagrare” = queimando) o fato está acontecendo. Os ânimos estão exaltados. Na maioria das vezes, há risco para a integridade física ou à vida dos cidadãos, por isso não se perde muito tempo com esclarecimentos no local do fato.  Quando ela chega, é primordial apaziguar os ânimos, separar os contentores e encaminhá-los à DP, ou seja, à Polícia Civil, daí o chavão: - “O Delegado resolve”.
Dito isto, pensei que tudo se resolveria facilmente: Lesão Corporal Recíproca, crime de Menor Potencial Ofensivo,  elaboraríamos um  Termo Circunstanciado, os envolvidos assinariam um Termo de Comparecimento em Juízo e seriam liberados. Se assim fosse, o casal iria curtir sua merecida noite de núpcias.

Aproveito o ensejo para mencionar uma colocação que já ouvi: o cidadão fica perplexo porque fulano aprontou, fez, aconteceu,  foi conduzido à Delegacia...  -  Como é que pode? Algumas horas depois, foi solto!
Pois bem, a lei criou as penas alternativas para os Crimes de Menor Potencial Ofensivo, aqueles cuja agressão não é considerada tão maléfica à sociedade, tendo as penas estabelecidas no Código Penal de até 2 anos. Nesses casos, toma-se o depoimento das partes as quais assinam um Termo de Compromisso de se apresentarem à Justiça quando intimados. As penas serão alternativas: prestação de serviços à comunidade, fornecimento de cestas básicas, multa, dentre outras.
Voltando ao casamento...

Noite de Núpcias?

Nada disso! Em consulta aos sistemas de informações, verificamos uma situação delicadíssima e inusitada:

Havia um Mandado de Prisão em aberto em desfavor do malfadado noivo.

Ele ficou lívido ao saber da notícia.

Eu fiquei desconsertada. Durante um curso realizado na Academia da Polícia Civil, um Delegado falou que Policial que não gosta de prender infratores que mudasse de profissão. Mas, nesse episódio, mesmo sabendo que Mandados de Prisão obrigatoriamente necessitam ser cumpridos, confesso que não fiz de bom grado.
A partir da notícia da prisão no noivo, pense no mais inconcebível tumulto, que me tirou do chão, atordoou-me, fez a adrenalina subir e sugou-me a energia que me sobrava naquele final de Plantão. Isso tudo, porque os convidados se deslocaram da Festa para a Delegacia.

O teor alcoólico deles já estava alto, eram os donos da razão e muito falantes: pai, mãe, sogro, sogra, amigos, todos queriam atenção e explicações dos agentes presentes na Delegacia.

 Com gente que se apinhava na frente do balcão e por mais que eu explicasse sobre o ocorrido a uma senhora que me parecia sóbria, antes de eu terminar a resposta, já eram cinco/seis pessoas falando ao mesmo tempo, em seus trajes de gala, querendo mais explicações. Como pode o noivo? Não pode ser! O que foi que ele aprontou? O que vai acontecer? Sem falar que não podíamos ficar conversando com os convidados.

Quando chega um flagrante, há muito que se fazer: qualificar os envolvidos e testemunhas, realizar oitivas, preparar a documentação que será enviada ao Poder Judiciário, conduzir o preso ao IML e por aí vai... Confesso que foi a situação que presenciei aquele espaço mais lotado, colorido e barulhento.

Estava esquecendo-me da noiva?

Não demorou muito e ela chegou, em seu belo vestido branco até o chão, a face preocupada, mas prestativa; queria entender o que se passava. No seu olhar, na expressão do seu rosto, pude perceber que o noivo já estava perdoado.

Expliquei-lhe que o Mandado de Prisão era devido à falta de pagamento de pensão alimentícia.

E anoite de núpcias?

Ah, essa, infelizmente, não aconteceu. Teve que ser adiada.

Por volta das cinco da manhã, eu ia para o alojamento feminino descansar um pouco, quando vi uma cena surpreendente: a noiva, ainda de vestido branco, abraçada ao noivo que jazia ali, preso, num banco de madeira no corredor da Delegacia.
Um pouco depois, acordei com o infalível despertador, passei novamente pelo corredor, cumprimentei o casal, e percebi uma diferença: a noiva trocara de roupa e continuava lá, agarradinha ao seu bem.

Acredito que o noivo se esqueceu de pagar alguma pensão devida, o que ensejou o Mandado de Prisão, e creio que esse casal ainda dará muitas gargalhadas contando a jocosidade que ocorreu no dia do casamento.


Por Lilian Angelotti










quarta-feira, 11 de maio de 2011

A SEGUNDA HISTÓRIA, por Paty





Por Paty

 Era tarde. Dia 01/01/2010 e o plantão em um feriado, naturalmente se arrastava. Isso porque tive o privilégio de trabalhar, nesses últimos dez anos, em uma Delegacia muito tranquila. Aqui os casos graves eram sociais: bêbados, excluídos, viciados e pancadaria... Isso sim tinha muito! Mulher com a cara arrebentada tentando entender como que o “Pedro”, tão doce no início, transformou-se numa pedrada tão difícil de encarar, enfim... coisas da vida, coisas de gente.

 O fato é que os excluídos: mendigos no geral, elegeram aquela área como a casa deles.

 Alguns moradores, com razão, ficavam insatisfeitos com as cenas pouco convencionais e mesmo deprimentes a que eram obrigados a presenciar: seus jardins com cheiro de coco e xixi humanos, a gritaria própria da animação que vem do álcool e mesmo o instinto natural sendo posto em prática pelos casais - isso era difícil -, mesmo porque tudo já havia sido tirado dessas pessoas, menos o poder da procriação. Mas não podíamos esquecer, mesmo que deformados pela pobreza e o sofrimento, eram pessoas, seres humanos e, como o serviço social não cumpria o seu papel, por razões que não cabe aqui discutir, restava à Polícia o trabalho de lidar com eles, de ouvi-los e até mesmo de enxotá-los. Fazer o quê? Nada é perfeito.

 Enfim, a Delegacia tinha esse perfil. Era um local tranquilo e agradável de se trabalhar. Fora o trato com os mendigos, bêbados e brigas entre casais, no mais não tínhamos problemas graves.

 Como o trabalho policial nos permite, a interação humana é uma necessidade. Melhor, é algo obrigatório. Começa com a habilidade de ouvir a vítima, o reclamante, o sofrido e, em alguns casos mais arrogantes: o contribuinte

E assim foi que aconteceu naquele dia 01/01/2010. Lá estava ele sentado nas cadeiras horrorosamente gastas do hall de entrada da delegacia. Isso: hall para ficar mais sofisticado. As cadeiras com estofamento vermelho tinham cada uma, o forro rasgado e propositadamente levantando, mostrando sua intimidade: uma espuma de cor de sei lá o que, determinando o quanto foram amassadas pelas nádegas que se aventuraram a buscar o atendimento policial e aparentavam, lamentavelmente, o quanto estavam sujas. Credo, que descaso!

 Estava lá o rapaz. Perguntei se havia sido atendido, ele prontamente respondeu que não. Fiz menção que o faria e ele se aproximou, expressando seu desejo de registrar uma ocorrência de acidente de trânsito sem vítima. Claro! Rapidinho, pensei... Ocorrência simples, rápida e objetiva é pra já. Então pedi:

 - Sua carteira de motorista, por favor.

- Como assim? respondeu como se o pedido fosse  o maior absurdo do mundo.

- A carteira de motorista. Você não deseja registrar um acidente de trânsito?

- Sim e daí?

- Daí que eu preciso da sua habilitação...

-Mas o que tem a ver a habilitação com o registro da ocorrência?

- Tem haver que eu preciso desse documento para registrar a ocorrência que você deseja...

- Mas eu tenho carteira de identidade.

-Acontece que a identidade não tem os dados que dizem respeito à sua habilidade para dirigir...

- A senhora me desculpe.

- Desculpe o quê?

- Não concordo com esse pedido...

- Que pedido?

- Da minha habilitação. Para que é necessária habilitação para um mero registro de ocorrência?

- é na habilitação que eu confiro se você pode dirigir e se o seu exame de saúde está válido...

- A habilitação tá na minha casa, aqui só a identidade. Não concordo!

- Ela não é suficiente. Preciso da sua habilitação.

- Mas eu não concordo!

- Direito seu. Então não registro.

 E foi saindo indignado... claro, não podia faltar o crucial: Qual o seu nome? Respondi com fé. Respirei fundo. Séria, calada estava e assim fiquei.

 E cheio da razão, sem habilitação e sem concordar foi pronto para dirigir... “Habilitação? Para quê? Que absurdo...



Paty

COITADA AMANTE, por Lili


Eu, Lili, na poltrona de um Boeing, que me traz de volta do Rio para Brasília, no meio de um feriado, estava conjecturando: primeiro, porque voltar na sexta-feira, se poderia curtir o final de semana na Cidade Maravilhosa? Segundo, qual seria a melhor história policial para iniciar o Blog da Policial Feminina?
Bingo! “O Caso da Amante” será fidedigno.






Venham comigo!
A noite estava adiantada em mais um plantão de 24 horas na Delegacia, quando o rádio nos comunicou ocorrência de um grave acidente de trânsito.
Eu e um colega Policial, o Geraldo (os nomes serão fictícios) entramos na viatura - luzes e sirene ligadas – e rumamos para o local. Era uma pista de alta velocidade, com várias faixas e os veículos colidiram violentamente.
Uma equipe do Corpo de Bombeiros já havia socorrido as vítimas quando chegamos. Mas, meu astuto colega - que nada deixa passar - me chamou a atenção no sentido de que o acidente fora gravíssimo, mostrando-me certa quantidade de massa encefálica esparramada no asfalto negro, além do que o veículo se transformara numa geringonça.
Qualquer ocorrência que seja fatal recebe atenção ultra especial. E nossa missão naquela madrugada seria esclarecer as circunstâncias do acidente: testemunhas do fato,  ingestão de bebida alcoólica, se houve culpa...
Todavia, naquela noite gélida, só restou carros indo e vindo em alta velocidade, além dos destroços no asfalto.
Entramos em contato com o Corpo de Bombeiros, quando fomos informados de que havia dois passageiros no interior de um dos veículos, mas apenas um homem fora socorrido ao hospital. Havia uma mulher que saiu ilesa.
Essa mulher desapareceu.
No próximo Plantão, minha colega, a Cláudia (nos três anos que compartilhamos a mesma equipe sempre fomos unidas, prestativas e grandes amigas), falou numa roda de conversa:
- Lili, lembra-se do acidente com morte, cuja única testemunha de um  veículo desapareceu?
Respondi que lembrava.
Cláudia: - Descobri porque ela saiu do local: era amante do motorista que faleceu.
Naquele instante, um turbilhão de pensamentos me invadiu. Achei um ato corajoso. Pensei no desalento daquela mulher ao ver o seu homem desfalecido. O romance seria cálido ou discutiam no momento do desastre?  Ó, sim, digna mulher, protegeu a reputação de seu homem, deixando o local, mesmo no momento da dor e da perda. Com esses pensamentos falei alto:
 – “Coitada da Amante.”
Cláudia, que é casada e têm filhos, começou a espezinhar a moça, dizendo:
- O quê, Lili, deu para proteger amantes agora? Afinal, de que lado você está?
Confesso que não compreendi a surpresa da colega, para mim seu comentário foi desproposital. Envolvimentos afetivos fora do casamento fazem parte das coisas mundanas. Luxúrias a parte, eu defendi a atitude da mulher.
A questão é que para mim, naquele instante, não me importou se a moça era amante, namorada, esposa, filha, mas sim uma alguém que se encontrava situação ambígua. Ir ou ficar? Num primeiro momento achei sua atitude sublime, mas, depois, conversando com outro colega, ele questionou se não seria covarde abandonar quem se gosta na hora da morte.
Pode ser um enigma descobrir a quem a gente obedece. Quem comanda o ir ou o ficar?  se o desejo, a coragem ou o medo.
Por Lilian Angelotti

Glossário:
 
fidedigno adj.adj.Digno de todo o crédito.

desalento s. m.Falta de alento; esmorecimento, desânimo.

cálido (latim calidus, -a, -um, quente, arrebatado) adj.adj.1.     Quente.2. Ardente.3. Sanguíneo!Sanguíneo.4. stuto.

 Espezinhar v. tr.1. Calcar aos pés.2. Fig. Humilhar, vexar, desprezar; oprimir.

luxúria (latim luxuria, -ae, exuberância, excesso) s. f.1. Viço dos vegetais. 2. Lascívia, sensualidade.

sublime adj. 2 g.adj. 2 g.1. Muito alto.2. Perfeitíssimo.3. Majestoso.4. Excelso; que fica acima de nós.5. Poderoso.6. Grandioso.7. Esplêndido; encantador.s. m.8. O belo; o máximo da perfeição, da beleza (nas obras artísticas); estilo sublime.