quarta-feira, 18 de maio de 2011

NOIVO PRESO NO DIA DO CASAMENTO, por Lili


Hoje estou num local propício para escrever casos policias - no restaurante Departamento de Polícia Especializada. Encontramos muitos colegas Agentes, Delegados, Peritos e Aposentados por aqui, num ambiente agradável.

 No DPE funcionam, por exemplo, a CORVIDA – Delegacia Especializada em Homicídios; a DRFV - Delegacia Especializada em Roubo e Furto de Veículos; a DPCA – Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, além de muitos outros departamentos viscerais para a PCDF – Direção Geral, IML, IC, etc.

Mas deixemos, por ora, toda essa estrutura.

Aqui está tranquilo, estou no anexo do restaurante e tem sombra. Invadiu-me a mente mais um caso no qual atuei na época em que tirava Plantões.

Venham comigo!

“A FESTA DE CASAMENTO QUE ACABOU NA DELEGACIA”

O título lembrou uma Festa Junina?

Apesar dessa história ter ocorrido no mês de junho, não foi o caso. Em Brasília, nessa época, os dias são quentes e secos e as noites frias e, naquela madrugada, compúnhamos uma equipe com poucos agentes. Tudo normal, até que a Polícia Militar, como é de praxe, adentrou a DP conduzindo uma confusão. Quando eles chegam, com suas fardas equipadíssimas; armas longas; e andar determinado, causam um certo frisson nos cidadãos que estão por ali registrando uma ocorrência de extravio de documento, um acidente de trânsito, etc. Até os agentes precisam de alguns minutos para acalmar os ânimos e entender do que se trata.

A princípio, parecia tratar-se apenas de um crime de Lesão Corporal porque  os policiais conduziam um rapaz com ferimentos. Pouco tempo depois, outra viatura trouxe mais um envolvido, um homem elegantemente trajado.


Nossa equipe foi informada de que os participantes da briga estavam numa Festa de Casamento mas, quando o rapaz trajando terno recebeu seu veículo, conduzido pelo manobrista, o carro veio com uma avaria com a qual o proprietário não concordou. O manobrista retorquiu, dizendo que o amassado já estava lá e que ele não tinha nada a ver com aquilo. Bastou para as adrenalinas subirem. Começou uma luta corporal com direito a socos e pontapés.
 Algum convidado telefonou para a Polícia Militar.
Pasmem! O rapaz de terno era o Noivo e foi conduzido à DP em uma viatura; igualmente, o manobrista, em outra.

A PM atua em situação de flagrante: (“flagrare” = queimando) o fato está acontecendo. Os ânimos estão exaltados. Na maioria das vezes, há risco para a integridade física ou à vida dos cidadãos, por isso não se perde muito tempo com esclarecimentos no local do fato.  Quando ela chega, é primordial apaziguar os ânimos, separar os contentores e encaminhá-los à DP, ou seja, à Polícia Civil, daí o chavão: - “O Delegado resolve”.
Dito isto, pensei que tudo se resolveria facilmente: Lesão Corporal Recíproca, crime de Menor Potencial Ofensivo,  elaboraríamos um  Termo Circunstanciado, os envolvidos assinariam um Termo de Comparecimento em Juízo e seriam liberados. Se assim fosse, o casal iria curtir sua merecida noite de núpcias.

Aproveito o ensejo para mencionar uma colocação que já ouvi: o cidadão fica perplexo porque fulano aprontou, fez, aconteceu,  foi conduzido à Delegacia...  -  Como é que pode? Algumas horas depois, foi solto!
Pois bem, a lei criou as penas alternativas para os Crimes de Menor Potencial Ofensivo, aqueles cuja agressão não é considerada tão maléfica à sociedade, tendo as penas estabelecidas no Código Penal de até 2 anos. Nesses casos, toma-se o depoimento das partes as quais assinam um Termo de Compromisso de se apresentarem à Justiça quando intimados. As penas serão alternativas: prestação de serviços à comunidade, fornecimento de cestas básicas, multa, dentre outras.
Voltando ao casamento...

Noite de Núpcias?

Nada disso! Em consulta aos sistemas de informações, verificamos uma situação delicadíssima e inusitada:

Havia um Mandado de Prisão em aberto em desfavor do malfadado noivo.

Ele ficou lívido ao saber da notícia.

Eu fiquei desconsertada. Durante um curso realizado na Academia da Polícia Civil, um Delegado falou que Policial que não gosta de prender infratores que mudasse de profissão. Mas, nesse episódio, mesmo sabendo que Mandados de Prisão obrigatoriamente necessitam ser cumpridos, confesso que não fiz de bom grado.
A partir da notícia da prisão no noivo, pense no mais inconcebível tumulto, que me tirou do chão, atordoou-me, fez a adrenalina subir e sugou-me a energia que me sobrava naquele final de Plantão. Isso tudo, porque os convidados se deslocaram da Festa para a Delegacia.

O teor alcoólico deles já estava alto, eram os donos da razão e muito falantes: pai, mãe, sogro, sogra, amigos, todos queriam atenção e explicações dos agentes presentes na Delegacia.

 Com gente que se apinhava na frente do balcão e por mais que eu explicasse sobre o ocorrido a uma senhora que me parecia sóbria, antes de eu terminar a resposta, já eram cinco/seis pessoas falando ao mesmo tempo, em seus trajes de gala, querendo mais explicações. Como pode o noivo? Não pode ser! O que foi que ele aprontou? O que vai acontecer? Sem falar que não podíamos ficar conversando com os convidados.

Quando chega um flagrante, há muito que se fazer: qualificar os envolvidos e testemunhas, realizar oitivas, preparar a documentação que será enviada ao Poder Judiciário, conduzir o preso ao IML e por aí vai... Confesso que foi a situação que presenciei aquele espaço mais lotado, colorido e barulhento.

Estava esquecendo-me da noiva?

Não demorou muito e ela chegou, em seu belo vestido branco até o chão, a face preocupada, mas prestativa; queria entender o que se passava. No seu olhar, na expressão do seu rosto, pude perceber que o noivo já estava perdoado.

Expliquei-lhe que o Mandado de Prisão era devido à falta de pagamento de pensão alimentícia.

E anoite de núpcias?

Ah, essa, infelizmente, não aconteceu. Teve que ser adiada.

Por volta das cinco da manhã, eu ia para o alojamento feminino descansar um pouco, quando vi uma cena surpreendente: a noiva, ainda de vestido branco, abraçada ao noivo que jazia ali, preso, num banco de madeira no corredor da Delegacia.
Um pouco depois, acordei com o infalível despertador, passei novamente pelo corredor, cumprimentei o casal, e percebi uma diferença: a noiva trocara de roupa e continuava lá, agarradinha ao seu bem.

Acredito que o noivo se esqueceu de pagar alguma pensão devida, o que ensejou o Mandado de Prisão, e creio que esse casal ainda dará muitas gargalhadas contando a jocosidade que ocorreu no dia do casamento.


Por Lilian Angelotti










6 comentários:

  1. kkkkkk... Quem mandou ele ter memória fraca e ser mão de vaca? Gostei da historinha. Pode postar mais!
    Bjks... Boa sorte! "Osi"

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  2. Risos...Obrigada Osi querida,ajude-nos a divulgar o Bloguinho!!!

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  3. Super fofo seu jeito de contar a historinha (e ainda deu uma aula de procedimentos policiais). Adorei o blog meninas, parabéns!!!
    bjim

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  4. Que bom que curtiu, assim animamos a escrever mais.

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  5. Selma - Lapa - Pr19 de maio de 2011 12:20

    Parabéns Lilian... Tenho acompanhado o blog e as histórias são realmente muito interessantes...
    Td de bom... Bjss

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  6. Oi Selma, fico muito contente em ter vc acompanhando o Blog. Abraços Lilian

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