quarta-feira, 11 de maio de 2011

A SEGUNDA HISTÓRIA, por Paty





Por Paty

 Era tarde. Dia 01/01/2010 e o plantão em um feriado, naturalmente se arrastava. Isso porque tive o privilégio de trabalhar, nesses últimos dez anos, em uma Delegacia muito tranquila. Aqui os casos graves eram sociais: bêbados, excluídos, viciados e pancadaria... Isso sim tinha muito! Mulher com a cara arrebentada tentando entender como que o “Pedro”, tão doce no início, transformou-se numa pedrada tão difícil de encarar, enfim... coisas da vida, coisas de gente.

 O fato é que os excluídos: mendigos no geral, elegeram aquela área como a casa deles.

 Alguns moradores, com razão, ficavam insatisfeitos com as cenas pouco convencionais e mesmo deprimentes a que eram obrigados a presenciar: seus jardins com cheiro de coco e xixi humanos, a gritaria própria da animação que vem do álcool e mesmo o instinto natural sendo posto em prática pelos casais - isso era difícil -, mesmo porque tudo já havia sido tirado dessas pessoas, menos o poder da procriação. Mas não podíamos esquecer, mesmo que deformados pela pobreza e o sofrimento, eram pessoas, seres humanos e, como o serviço social não cumpria o seu papel, por razões que não cabe aqui discutir, restava à Polícia o trabalho de lidar com eles, de ouvi-los e até mesmo de enxotá-los. Fazer o quê? Nada é perfeito.

 Enfim, a Delegacia tinha esse perfil. Era um local tranquilo e agradável de se trabalhar. Fora o trato com os mendigos, bêbados e brigas entre casais, no mais não tínhamos problemas graves.

 Como o trabalho policial nos permite, a interação humana é uma necessidade. Melhor, é algo obrigatório. Começa com a habilidade de ouvir a vítima, o reclamante, o sofrido e, em alguns casos mais arrogantes: o contribuinte

E assim foi que aconteceu naquele dia 01/01/2010. Lá estava ele sentado nas cadeiras horrorosamente gastas do hall de entrada da delegacia. Isso: hall para ficar mais sofisticado. As cadeiras com estofamento vermelho tinham cada uma, o forro rasgado e propositadamente levantando, mostrando sua intimidade: uma espuma de cor de sei lá o que, determinando o quanto foram amassadas pelas nádegas que se aventuraram a buscar o atendimento policial e aparentavam, lamentavelmente, o quanto estavam sujas. Credo, que descaso!

 Estava lá o rapaz. Perguntei se havia sido atendido, ele prontamente respondeu que não. Fiz menção que o faria e ele se aproximou, expressando seu desejo de registrar uma ocorrência de acidente de trânsito sem vítima. Claro! Rapidinho, pensei... Ocorrência simples, rápida e objetiva é pra já. Então pedi:

 - Sua carteira de motorista, por favor.

- Como assim? respondeu como se o pedido fosse  o maior absurdo do mundo.

- A carteira de motorista. Você não deseja registrar um acidente de trânsito?

- Sim e daí?

- Daí que eu preciso da sua habilitação...

-Mas o que tem a ver a habilitação com o registro da ocorrência?

- Tem haver que eu preciso desse documento para registrar a ocorrência que você deseja...

- Mas eu tenho carteira de identidade.

-Acontece que a identidade não tem os dados que dizem respeito à sua habilidade para dirigir...

- A senhora me desculpe.

- Desculpe o quê?

- Não concordo com esse pedido...

- Que pedido?

- Da minha habilitação. Para que é necessária habilitação para um mero registro de ocorrência?

- é na habilitação que eu confiro se você pode dirigir e se o seu exame de saúde está válido...

- A habilitação tá na minha casa, aqui só a identidade. Não concordo!

- Ela não é suficiente. Preciso da sua habilitação.

- Mas eu não concordo!

- Direito seu. Então não registro.

 E foi saindo indignado... claro, não podia faltar o crucial: Qual o seu nome? Respondi com fé. Respirei fundo. Séria, calada estava e assim fiquei.

 E cheio da razão, sem habilitação e sem concordar foi pronto para dirigir... “Habilitação? Para quê? Que absurdo...



Paty

6 comentários:

  1. Parabéns pela primeira matéria

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  2. Foi boazinha.. Teria feito a ocorrência para o ''cliente'', mas se o mesmo não tivesse a CNH só sairia da DP sob a condição de ter assinado um Termo de Compromisso por falta da habilitação.

    Gostei do blog.

    Abraço

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  3. Olá Anônimo!

    Legal o seu ponto de vista, um abraço, Paty.

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  4. Oi Paty,
    aqui em Goiânia, nòs agente de trânsito, que fazemos esse tipo de ocorrência no local mesmo do acidente.
    vai ver ele nem tinha CNH
    rsrs
    gosto do jeito que vcs 2 escrevem, muito bom
    bjos

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  5. Oi Regina!

    Estou curtindo que você tem nos acompanhado... Esse caso foi interessante porque o sujeito queria um registro mas não viabilizou o atendimento. Aparece cada um...
    Um abraço! Paty.

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  6. Oi Paty,

    to chamando minha turma pra vir aqui tb

    rsrs

    pessoal gosta dessas coisas

    hehehe

    abraços

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