terça-feira, 28 de junho de 2011

CONCURSO PÚBLICO PARA A POLÍCIA (Parte 2), por Lili




Dia do resultado. Ansiedade e esperança: meu nome não constava na lista dos aprovados. Visto isto, abater-se? Que nada!


 O resultado fora muito bom, porque todos os participantes que alcançaram 60% da prova foram chamados a prosseguir no certame; e eu fiquei ali pelos 56%.

Alguns dias depois, iniciaram as inscrições para as provas de Agente e Delegado da Polícia Civil do Distrito Federal

Supimpa! Mais três meses para estudar e o salário era exatamente o mesmo da PF. No edital verifiquei que não cairiam aquelas matérias extras que me chatearam tanto no concurso anterior. Desta vez, por precaução, me inscrevi apenas para a prova de Agente.

Pedi a minha irmã em Brasília que comprasse dois apostilões de uma editora respeitada, abrangendo toda a matéria do certame, as quais estudei do começo ao fim, não havia tempo para aprofundamento em doutrinas específicas.

Dica para os concurseiros:

O “Edital”  da prova escolhida enseja reflexão e atitude. Tive cautela. O tempo urgia e poderia tanto ser meu aliado, quanto me vencer. Assim, é necessário fazer umas continhas, separei o tempo disponível para estudo, de acordo com o peso das disciplinas na prova. Por exemplo: verifiquei que as questões de português valiam três pontos, ao passo que as de direito, correspondiam a um ponto. Além disso, havia a redação com pontuação expressiva, bem como interpretação de textos.

 Será que a banca deseja  redatores exímios

 para serem policiais?

Somando os pontos do português (redação, interpretação de texto e gramática) corresponderam exatamente  a 50% da pontuação da prova. Eu não era lá expert em português. Por isso, decidi que metade do tempo seria dedicado a essa matéria crucial e, o restante,  dividi entre as disciplinas de direito.

Um mês e meio antes da prova, achei no fundo do armário um livro já amarelado pelo tempo, cujo título era:


“Como passar em Provas e Concursos Públicos”

 de Willian Douglas,

comprado durante uma palestra do autor na época da faculdade. Entremeando o estudo contínuo, toda noite,  lia um capítulo e já aplicava as dicas ao meu esquema de estudo. A leitura representava relaxamento e incentivo. Creiam, até alimentos que auxiliam a memória havia naquelas páginas, dentre tantas outras dicas que segui.

Outro aspecto fundamental reside na resolução de provas anteriores, de preferência, do começo ao fim, em tempo real; depois verificar a pontuação em cada disciplina para aumentar a dedicação àquelas mais fracas.


Um mês antes da prova, fui para Brasília, hospedei-me na casa de minha irmã na Asa Sul – a briga com as cigarras foi frenética – havia robustas árvores infestadas de cigarras naquele mês do ano, os galhos alcançavam a janela do segundo andar, onde eu desejava estudar. Era um zumbido infernal. Matriculei-me num cursinho preparatório, só com resolução de questões de prova. Ufa! Lá não havia cigarras.

Foi uma excelente estratégia.

Lili

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O CONCURSO PÚBLICO PARA A POLÍCIA (Parte 1), por Lili


Quando iniciei a postagem sobre a odisseia que foi a minha aprovação no concurso público para o cargo de Agente da Polícia do Distrito Federal, me dei conta de que o relato ficou bem extenso; por isso será postado em partes.




Formatura na Faculdade de Direito no Rio de Janeiro. Passado o entusiasmo da festa, eu conjecturava com certo sofrimento, próprio das escolhas importantes:

E agora? O que fazer da vida?

Meu namorado mudara-se para os EUA, e eu, na conturbação própria da juventude, o visitei diversas vezes lá. Ainda não vislumbrava boas perspectivas profissionais em nosso país, sendo que morar no estrangeiro me parecia uma opção desafiadora. Será?

Até que numa tarde, um amigo telefonou-me perguntando o que iria fazer depois de formada, uma vez que já estava munida com a carteira da OAB. Respondi que não sabia. Ele alertou-me de que havia um concurso para a Polícia Federal, cujas inscrições teriam sido prorrogadas.

Na minha família há tradição em seguir a carreira pública, motivo pelo qual eu, em minha idealização de vanguarda, acreditava que faria diferente. Acreditava no chavão: “Ser funcionário publico é chato e as tarefa são repetitivas”.   


      Ainda, estava convicta de que ser aprovada em concurso em um país que andava em crise há um bom tempo, ensejando escassez de oportunidades em várias áreas, não seria tarefa fácil e blá blá blá ...

Felizmente larguei minhas inferências negativas para lado e decidi seguir a dica do colega. Faltavam três meses para a prova. Eu morava na Barra da Tijuca e sabia que os melhores cursinhos estavam no centro da cidade. Entretanto, concluí que seria um desperdício de tempo tal deslocamento.

Acreditava plenamente que em três meses poderia preparar-me e passar naquele certame. Foi uma conflagração movida pela esperança de que, sim, há nesse país, que tanto admiro e me sinto plenamente integrada, boas possibilidades de colocação no mercado de trabalho. Além do que, ser uma Policial Federal parecia-me bem atraente.

Encontrei num anúncio do jornal um curso em Ipanema, preparatório exatamente para o concurso que pretendia. Matriculei-me. Primeiro dia de aula, havia poucos alunos, uns trinta. O local ainda andava bem desorganizado porque o curso era novo. Eu, para aplacar esse déficit, estudava em casa, totalizando uma média de sete a dez horas por dia.

 Namoro, carnaval, cinema ou praia? Nada disso! Apenas o exercício físico permaneceu. Emagreci de um tanto, que já em Brasília, quando me vi no espelho do provador da loja Elle et Lui,   tomei um baita susto.

 O concurso era para Agente e Delegado da Polícia Federal. Para meu desalento constava no edital algumas matérias diversas de direito, tais quais: administração, raciocínio lógico, contabilidade... Isso me embaraçava, uma vez que nunca tivera contato com elas, demandando dedicação e gastando meu precioso tempo.

Tive a ousadia de me inscrever para os dois cargos oferecidos. A prova para Delegado foi um dia antes da de Agente, o que me fez sentir um tanto esgotada para a segunda.

No dia da prova tomei um táxi – num dia importante como esse, é melhor evitar preocupações com trânsito e estacionamento. Colégio no subúrbio, um tropel descendo em direção ao certame. Ufa! Achei minha sala, sentei numa cadeirinha apertada, o dia estava quente. A prova para Delegado parecia um dragão a ser abatido. O raciocínio devia ser rápido, o tempo urgia e ainda,  uma questão errada anulava outra certa. Prova pronta! Alívio. Ônibus de volta para casa.

Lili
 
Glossário:

odisseia  Viagem cheia de aventuras e peripécias.2. Série de acontecimentos anormais e variados.

conjecturar -julgar, depreender por conjecturas!conjeturas.2. Presumir.3. Prever.

 Conjugar vanguarda - (francês avant-garde) 3. Agente, grupo ou movimento intelectual, artístico ou político que está ou procura estar à frente do seu tempo, relativamente a ações!ações, ideias ou experiências. s. f.1. Primeira linha de um exército, de uma esquadra, etc., em ordem de batalha ou de marcha. ≠ retaguarda2. Parte da frente. = dianteira, frente
 
tropel s. m.1. Multidão de gente que corre em tumulto.2. Ruído do andar ou do correr de muita gente ou de animais.3. Fig. Confusão.4. Grande quantidade, grande número; montão, acervo.CAMUS








quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rapidinhas 3 - O SENHOR da Ocorrência


- Posso te ajudar? Em resposta, o silêncio e um olhar direto. Pensei: será que esse rapaz é deficiente auditivo? Então insisti :

 
- Pois não?  O silêncio se repetiu, mas não tive dúvida. O rapaz me olhava, então percebi que ele sabia que eu falava com ele. Naqueles segundos, o telefone dele tocou e ele atendeu e desligou – conclui: não é surdo. Voltou novamente o olhar para mim, mas não disse palavra. Na minha posição, tive que continuar.

- Amigo, está aguardando alguém? Já foi atendido?

Ele manteve o olhar, com impaciência e em tom mal humorado, soltou a exigência mais original que havia sido dita até aquele dia:

 - Enquanto "VOCÊ" não me chamar de “SENHOR”, não vou dizer o que eu quero aqui, falou, invertendo a situação, como se eu é que aguardasse o atendimento.

- Sem acreditar, mas sabendo que no balcão tudo acontece, sorri e expressando surpresa. Não me contive:     - Como?



- “Você” me chame de “senhor”, só então digo o que quero.

Fui objetiva e inexplicavelmente cordial, embora com muita vontade de rir daquela situação inusitada, argumentei:

- Olha, meu tratamento para com você não foi desrespeitoso, ao contrário do seu comportamento; a palavra você é uma forma de tratamento, por isso, não vou lhe chamar de senhor... Caso você não queira adiantar o seu atendimento, fique a vontade; e me afastei...

Nesse momento, o chefe do plantão aproximou-se e foi até o rapaz, cometendo aquele erro mortal, perguntando se VOCÊ já tinha sido atendido...

Antes que o silêncio fosse a resposta para o melhor chefe que já tive, eu não o deixei falando sozinho e adiantei:

- Eu já tentei atendê-lo, mas ele ser recusa a dizer o que quer se antes não for chamado de SENHOR...

Os olhos do meu colega se fecharam em sinal de dúvida e rapidamente se abriram dada a surpresa que tivera, fazendo seu rosto ganhar um contorno engraçado. Balançando a cabeça de leve numa negativa, sem saber, mas optando pela minha decisão, disse:

- Então espera aí, na hora que você decidir ser atendido você fala com a gente, ao tempo que se afastou do balcão.

E o rapaz esperou. Cada minuto que perdia na delegacia deveria afligi-lo, já que era vítima da situação ridícula que criara. Vencido e humilhado pela sua atitude sem explicação, foi até mim e disse:

- Tira uma cópia desta ocorrência.

 Tinha na entonação da voz comando, ao tempo que me dava um número. Assim mesmo, ignorando as regras da boa convivência, sem por favor, sem nada, talvez por que estivesse entalado com seu orgulho.

- Peça "POR FAVOR" que eu tiro.

 Não fiz isso. Confesso que a vontade e a maldade estavam ali, com sabor de chocolate, tentando meu paladar para que eu as saboreasse e fazendo de mim uma pobre alma, fraca pronta para cair em tentação e no meu imaginário, que é livre e privado, confesso: pequei!

Abri a armadilha na qual ele se prendeu. Fui lá e retirei a cópia.  Não pude deixar de conferir o crime que a ocorrência ostentava: Flagrante de Desacato. Por que será?


Paty.




terça-feira, 14 de junho de 2011

Rapidinhas 2 - TENTATIVA DE HOMICÍDIO, por Paty


Chegou esbaforido, respirando difícil e quase não conseguia falar, mas não estava suado, amarrotado ou sangrando, suas roupas alinhadas não denunciavam luta corporal, porém, seus olhos falavam tudo: estava com raiva, muita raiva, mas não medo, o que se mostrou incoerente quando anunciou:

- Quero registrar uma ocorrência de Tentativa de Homicídio.

Com essa notícia, fiquei assustada, claro. Pensei no rádio e que teria que anunciar informações do tipo: onde, quem, como e por quê? Fiquei discretamente agitada e procurei centrar na vítima. Talvez fosse por isso que ele tinha aquela aparência tão perturbada.

- O senhor é a vítima? Arrisquei.

Ele acenou com a cabeça e eu me solidarizei.

- O senhor sabe quem é o autor?

- Esse ai, e apontou para o lado onde havia um homem moreno, alto e sereno, que de tão tranquilo, nem se preocupava em contestar o crime de que estava sendo acusado, contentava-se apenas em fazer sinal de negativo com a cabeça e sorrir olhando para baixo.

Eu fiquei confusa, já que o homem feroz, apresentou-se como vítima, e indicou um sujeito tranquilo como autor, eu tratei de confirmar a história, já que na polícia, aparência não é um critério absoluto.

- Moço o que ocorreu?

- Ele saia do motel e jogou o carro em cima do meu, e quase provocou um acidente, quase batemos, quase morremos quase...

Ele, revoltoso, falava todos os quases que podia, e concluí que de concreto, nada havia acontecido e montei a história. Nas proximidades havia uma marginal, que dava acesso a alguns motéis, cujas saídas, perigosas, levavam os motoristas menos atentos, literalmente, a saírem projetados contra os outros carros, no trânsito intenso e naquele caso, quase ocorrera uma batida séria.

Busquei então, acalmar o homem, que da pancada - não, mas quase morrerá de susto...

- O senhor conhece esse rapaz?

- Não, mas ele quis me matar, jogou o carro em cima de mim... quase me matou!

- Senhor! Acompanhe-me. Fiz um turbilhão de perguntas para despertá-lo daquela fúria e fazê-lo perceber o que realmente havia acontecido.

 Ele o conhece? Tem alguma pendência contra você? Sabe o seu nome? Onde você trabalha? O que faz na vida? Sabe de onde vinha e para onde ia?  E onde você mora? Tem alguma dívida com você? Conhece algum parente seu? Alguém de sua parte fez algum mal a ele? Qual é o vínculo entre vocês?

Após uma sequência ininterrupta de nãos, ele me respondeu que não tinham nenhum vínculo e aparentemente caiu em si. Não havia motivo para aquele estranho tentar matá-lo, embora saibamos que muitos malucos do nada, fazem coisas horríveis contra pessoas que não conhece, mas não era aquele um desses casos.

Ponderei:

- Foi apenas um susto, ele saiu descuidado do motel e entrou na via, isso não é tentativa de homicídio.

- Ele quase me mata!

- Não moço, ele quase provoca um Acidente de Trânsito sem Vítima. Ele, sim, te matou de susto e para isso não há ocorrência.

Ele não teve argumento. Percebeu que o susto superara as expectativas que buscava na delegacia.

- Mas que foi quase foi! Disse, e foi saindo quase conformado...



 Paty.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

(Rapidinhas 1) Louça suja se lava em casa, por Paty

As pessoas vão até a Delegacia, pressupõe-se, motivadas por um problema, na busca de uma solução, ou mesmo uma orientação.  Aqui estou pensando a respeito de alguns motivos inusitados, por que não, inacreditáveis que apareceram lá pelo balcão – que naqueles momentos, mais parecia balcão de boteco ou assunto de salão -, mas era na verdade, a espera da DP e lá da memória vieram à tona esses episódios...
Louça suja se lava em casa

Passava do meio dia. O sol, sem ser convidado, entrava espaçoso pelas vidraças, aquecendo  todos contra a vontade, inclusive eu. O tempo, ao contrário, não queria sair do lugar e a tarde ia nesse ritmo, prometendo ser longa. Eu olhava ofuscada pela claridade e pensava que o período da manhã já havia me rendido atendimentos, cujo saldo pesava sobre mim, na forma do cansaço que eu sabia sentir. E foi ai que ela chegou.
Séria, compenetrada, levava consigo uma bolsa Louis Vuitton, que discretamente olhei, por ser um mimo de desejo implícito a cada mulher. A moça manteve a pose, à altura da bolsa e em questão de segundos me perguntei: será legítima? Meu lampejo de pensamento foi interrompido quando a garota deixou claro seu motivo de estar ali, na minha frente, no balcão que mais parecia uma sauna seca.
- Quero registrar uma ocorrência de ameaça.
- Como foi essa ameaça? Interroguei, iniciando meu trabalho, que é recheado de perguntas...
-Foi dentro da minha casa.
- Sim... E como foi? Quem a ameaçou?
- Foi minha cunhada a namorada do meu irmão.
- Hum... Ela mora lá com vocês?
- Não só namora mesmo. Ela está grávida dele, mas não mora lá... Ainda não.
- E qual foi o termo da ameaça? Qual o motivo?
- A louça. Ela ameaçou me dar uma surra se eu não lavar a louça toda.
- Como? Disse despertando da sonolência que silenciosamente me derrotava e era agravada pelo calor...
- É que eu moro lá com meu irmão e ela vai lá e fica sujando tudo e me mandando limpar...  Acontece que eu dei limpeza na casa e pensei: não vou ficar mais lavando louça para ela, não sou empregada! Ai eu deixei a louça suja, ela achou ruim, me deu uns empurrões e me ameaçou dizendo que se eu não lavar a louça TODA eu vou apanhar...
- Deixa ver se entendi: você mora lá, o interesse de manter a casa limpa é seu, e você, por causa de outra pessoa que nem lá reside, deixa a pia cheia de louças para fazer pirraça é isso? Mas de quem é a responsabilidade da casa? Sua ou da namorada do seu irmão que não mora lá?
- Minha. Mas ela só sabe sujar e, além disso, ameaçou me bater...
- Você não pode conversar com ela, junto com seu irmão? Resolver isso sem envolver a Polícia? Olha vocês vão ter um vínculo, ela está grávida e o bebê é seu sobrinho...
- Não.

- Você já pensou no que o juiz vai achar de começar uma audiência sobre o crime de Ameaça, por que você e a namorada de seu irmão se desentenderam por causa de uma louça suja? Louça suja se lava e se resolve é em casa, você não acha? Você considera isso um assunto de polícia?
- Eu tenho medo que ela me bata, quero uma ocorrência.
- E a louça? Perguntei sem fé no que ouvia...
- Vai continuar suja, até que tudo se resolva...
Não disse palavra. Não tinha mais o que dizer, só fazer...
Registrei a ocorrência então, por mais absurda que se apresentasse, ali estava uma cidadã e receberia seu atendimento. Nesses minutos que se passaram, enquanto registrava, permiti-me divagar no gasto público que envolveria aquele procedimento.
Seria iniciado com a intimação da vítima e autora para prestarem informações a respeito do desentendimento que culminou com uma ameaça, motivada por uma louça suja. Com sorte, as duas seriam localizadas em primeira tentativa, evitando a reincidida da visita com dois policiais, no mínimo e com a viatura. Em seguida, o relatório policial seria confeccionado e remetido ao delegado, que determinaria a instauração do Termo Circunstanciado e a emissão do pequeno dossiê para o judiciário.
No judiciário seria tombado – receberia um número, e atingiria a maioridade, tornando-se um processo capaz de atribuir responsabilidades penais. Uma audiência de Conciliação seria marcada e um espaço na agenda reservado. Na data combinada, um conciliador – Estudante garantindo horas de prática jurídica para a faculdade de Direito, tentaria implantar o diálogo que as duas moças, sozinhas, não conseguiram manter, e como não haveria consenso sobre quem tinha o dever de lavar a louça, finalmente, com novo horário na agenda, iriam deparar-se com o juiz.
Na sala de audiência, por se tratar de crime, cuja esfera é de interesse público, o MP atuaria oferecendo a denúncia, caberia então ao magistrado, condenar a autora por ameaçar a futura cunhada - Dona da louça suja e preguiçosa, ou absolvê-la e manter impune a folgada que emporcalhava a casa alheia, que dilema?
Pela experiência, e tomara, pelo bom senso, as pessoas desistem antes, muito antes de completar o rito processual. Sorte de quem realmente precisa da Justiça e economia para o Estado.
Agora o agente responsável pela ocorrência, esse sim, sem escapatória, foi - Querendo ou não, investigar o caso que envolvia a ameaça pela louça suja alheia.
A propósito, sobre aquela dúvida em torno da bolsa, depois desse motivo de ocorrência, conclui que a Louis Vuitton com certeza era fake.
 Paty.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Esta não é uma história policial... , por Lili

Vinte de maio, dez e trinta da manhã, quinta feira. Leitores do Blog perdoem-me porque a crônica de hoje não será policial; escrevo sobre assuntos que parecem banais, mas que num olhar mais atento, são fundamentais.
 
   Estou há uma hora na sala de espera de uma clínica em Brasília para fazer exames de mulher, mas não estou enfairada. Está até agradável, decoração minimalista; ar-condicionado; tv tela plana com volume audível.  Ainda, as atendentes são elegantes  e simpáticas. Uma delas usava um rímel tão proeminente que o elogiei e perguntei a marca. Ela respondeu: - É o novo lançamento da Avon. Dona Nice da DP que me aguarde.

 Eu brigo com a programação da TV na tentativa de ler um livro que trago na bolsa: “O sol também se levanta", de Ernest Hemingway.
Quando fui pegar o que já era meu terceiro cafezinho, embaixo do retângulo mágico – felizmente ainda quente -, prestei atenção na entrevista do programa entretenimento - desses que passam de manhã e duram horas. Percebi um médico, entrevistado por uma moça bonita e falante.  Por que será que todos naquela grande sala de espera de se deleitavam com a entrevista do homem de jaleco branco? Atentei para o médico ensinando a utilizar bombinhas para quem sofre de bronquite.
 
Falando sério, o que importa como usar as tais bombinhas para quem não sofre desse mal?

Voltei para o meu lugar, olhei para um lado e avistei um mega revisteiro,  ocupando uma parede inteira.
  Apreciando as capas, percebi bocas e sorrisos estampados nas “Caras” e “Contigos”: todos ricos, bonitos, felizes e famosos. Será que são mesmo?
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Portinari

Deixei o livro  e  prestei atenção às chamadas: “Kate e Willian - Casamento Real”. Fiquei contente quando um amigo do Rio de Janeiro me disse que eu lembrava a princesa Kate, mas fico espantada  ao perceber que nossa imprensa dá uma atenção descomunal a esta união.
  Na capa da revista Contigo, o título diz assim “A Plebeia vai virar Princesa”. Será que é tão maravilhoso o dia-a-dia de uma princesa? Quando assisti ao premiado filme “A Rainha”, tive minhas dúvidas.
Portinari

Há outra capa dizendo que a “Ana Paula Arósio troca a fama pela vida no campo e está grávida”. Essa boa atriz, pelo que sei, sempre foi meio rabugentinha e gosta do campo. Mas foi bom saber que a moça que tem a minha idade está grávida.
  Mais uma capa: “Letícia Spiller apresenta Estela sua filha”. É claro que não podia  faltar a bela e talentosa “Gisele Bündchen com o marido Tom Brady”.
 
  A revista que costumo ler é Tpm, que não quer dizer tensão pré-menstrual, mas sim, Trip para mulheres, também curto a Vida Simples e a Bravo.
 
  Precisava desabafar... Não é de hoje que a Indústria Cultural no Brasil me causa estranheza. Necessitamos de cultura:  filmes, livros, viagens, bons restaurantes. Precisamos também ter versatilidade para alcançarmos essas coisinhas. As publicações poderiam trazer um pouco mais disso,  ao invés de nos fazer engolir padrões inatingíveis e montados.
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Portinari
É enfadonho que a maior parte dos programas da TV a cabo seja importada. Não assisto! Sou radical mesmo. Oprah Winfrey, David Letterman... Ainda bem que sobram  alguns programas nacionais no canal 41 Gnt e o grandioso Canal Brasil, 66.

  Por que somos bombardeados por notícias da vida íntima dos artistas? O que nos acrescenta? Por que  não carregamos nossos próprios livros e revistas para momentos de espera? Pensando bem, eles sempre aparecem do nada. Vamos continuar aceitando passivamente as caras e bocas das revistas, os programas enlatados e o médico ensinando a utilizar a bombinha?

Enquanto estava na clínica, coincidentemente, um colega de trabalho telefonou-me ao meio-dia, dizendo que estava numa sala de espera de médico otorrino, com o qual marcara às dez e trinta, todavia, já passava do meio dia, e não  havia sido atendido. Perguntei-lhe se tinha levado algo para ajudar a passar o tempo. Respondeu que “não”.
Penso que adultos que somos, com tantos compromissos que a ideologia do capitalismo nos sujeita, precisamos ficar atentos para não nos transformarmos em marionetes do mercado de consumo:

Precisamos fabricar nosso tempo!
  Sempre carrego a tiracolo uma boa leitura - desde a fila do mercado, até a beira da piscina - quando não há bebida e amigos para uma boa conversa - é claro. 
 Qualquer tempo que sobra é tempo bom, tempo útil.