terça-feira, 14 de junho de 2011

Rapidinhas 2 - TENTATIVA DE HOMICÍDIO, por Paty


Chegou esbaforido, respirando difícil e quase não conseguia falar, mas não estava suado, amarrotado ou sangrando, suas roupas alinhadas não denunciavam luta corporal, porém, seus olhos falavam tudo: estava com raiva, muita raiva, mas não medo, o que se mostrou incoerente quando anunciou:

- Quero registrar uma ocorrência de Tentativa de Homicídio.

Com essa notícia, fiquei assustada, claro. Pensei no rádio e que teria que anunciar informações do tipo: onde, quem, como e por quê? Fiquei discretamente agitada e procurei centrar na vítima. Talvez fosse por isso que ele tinha aquela aparência tão perturbada.

- O senhor é a vítima? Arrisquei.

Ele acenou com a cabeça e eu me solidarizei.

- O senhor sabe quem é o autor?

- Esse ai, e apontou para o lado onde havia um homem moreno, alto e sereno, que de tão tranquilo, nem se preocupava em contestar o crime de que estava sendo acusado, contentava-se apenas em fazer sinal de negativo com a cabeça e sorrir olhando para baixo.

Eu fiquei confusa, já que o homem feroz, apresentou-se como vítima, e indicou um sujeito tranquilo como autor, eu tratei de confirmar a história, já que na polícia, aparência não é um critério absoluto.

- Moço o que ocorreu?

- Ele saia do motel e jogou o carro em cima do meu, e quase provocou um acidente, quase batemos, quase morremos quase...

Ele, revoltoso, falava todos os quases que podia, e concluí que de concreto, nada havia acontecido e montei a história. Nas proximidades havia uma marginal, que dava acesso a alguns motéis, cujas saídas, perigosas, levavam os motoristas menos atentos, literalmente, a saírem projetados contra os outros carros, no trânsito intenso e naquele caso, quase ocorrera uma batida séria.

Busquei então, acalmar o homem, que da pancada - não, mas quase morrerá de susto...

- O senhor conhece esse rapaz?

- Não, mas ele quis me matar, jogou o carro em cima de mim... quase me matou!

- Senhor! Acompanhe-me. Fiz um turbilhão de perguntas para despertá-lo daquela fúria e fazê-lo perceber o que realmente havia acontecido.

 Ele o conhece? Tem alguma pendência contra você? Sabe o seu nome? Onde você trabalha? O que faz na vida? Sabe de onde vinha e para onde ia?  E onde você mora? Tem alguma dívida com você? Conhece algum parente seu? Alguém de sua parte fez algum mal a ele? Qual é o vínculo entre vocês?

Após uma sequência ininterrupta de nãos, ele me respondeu que não tinham nenhum vínculo e aparentemente caiu em si. Não havia motivo para aquele estranho tentar matá-lo, embora saibamos que muitos malucos do nada, fazem coisas horríveis contra pessoas que não conhece, mas não era aquele um desses casos.

Ponderei:

- Foi apenas um susto, ele saiu descuidado do motel e entrou na via, isso não é tentativa de homicídio.

- Ele quase me mata!

- Não moço, ele quase provoca um Acidente de Trânsito sem Vítima. Ele, sim, te matou de susto e para isso não há ocorrência.

Ele não teve argumento. Percebeu que o susto superara as expectativas que buscava na delegacia.

- Mas que foi quase foi! Disse, e foi saindo quase conformado...



 Paty.

2 comentários: