quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rapidinhas 3 - O SENHOR da Ocorrência


- Posso te ajudar? Em resposta, o silêncio e um olhar direto. Pensei: será que esse rapaz é deficiente auditivo? Então insisti :

 
- Pois não?  O silêncio se repetiu, mas não tive dúvida. O rapaz me olhava, então percebi que ele sabia que eu falava com ele. Naqueles segundos, o telefone dele tocou e ele atendeu e desligou – conclui: não é surdo. Voltou novamente o olhar para mim, mas não disse palavra. Na minha posição, tive que continuar.

- Amigo, está aguardando alguém? Já foi atendido?

Ele manteve o olhar, com impaciência e em tom mal humorado, soltou a exigência mais original que havia sido dita até aquele dia:

 - Enquanto "VOCÊ" não me chamar de “SENHOR”, não vou dizer o que eu quero aqui, falou, invertendo a situação, como se eu é que aguardasse o atendimento.

- Sem acreditar, mas sabendo que no balcão tudo acontece, sorri e expressando surpresa. Não me contive:     - Como?



- “Você” me chame de “senhor”, só então digo o que quero.

Fui objetiva e inexplicavelmente cordial, embora com muita vontade de rir daquela situação inusitada, argumentei:

- Olha, meu tratamento para com você não foi desrespeitoso, ao contrário do seu comportamento; a palavra você é uma forma de tratamento, por isso, não vou lhe chamar de senhor... Caso você não queira adiantar o seu atendimento, fique a vontade; e me afastei...

Nesse momento, o chefe do plantão aproximou-se e foi até o rapaz, cometendo aquele erro mortal, perguntando se VOCÊ já tinha sido atendido...

Antes que o silêncio fosse a resposta para o melhor chefe que já tive, eu não o deixei falando sozinho e adiantei:

- Eu já tentei atendê-lo, mas ele ser recusa a dizer o que quer se antes não for chamado de SENHOR...

Os olhos do meu colega se fecharam em sinal de dúvida e rapidamente se abriram dada a surpresa que tivera, fazendo seu rosto ganhar um contorno engraçado. Balançando a cabeça de leve numa negativa, sem saber, mas optando pela minha decisão, disse:

- Então espera aí, na hora que você decidir ser atendido você fala com a gente, ao tempo que se afastou do balcão.

E o rapaz esperou. Cada minuto que perdia na delegacia deveria afligi-lo, já que era vítima da situação ridícula que criara. Vencido e humilhado pela sua atitude sem explicação, foi até mim e disse:

- Tira uma cópia desta ocorrência.

 Tinha na entonação da voz comando, ao tempo que me dava um número. Assim mesmo, ignorando as regras da boa convivência, sem por favor, sem nada, talvez por que estivesse entalado com seu orgulho.

- Peça "POR FAVOR" que eu tiro.

 Não fiz isso. Confesso que a vontade e a maldade estavam ali, com sabor de chocolate, tentando meu paladar para que eu as saboreasse e fazendo de mim uma pobre alma, fraca pronta para cair em tentação e no meu imaginário, que é livre e privado, confesso: pequei!

Abri a armadilha na qual ele se prendeu. Fui lá e retirei a cópia.  Não pude deixar de conferir o crime que a ocorrência ostentava: Flagrante de Desacato. Por que será?


Paty.




4 comentários:

  1. Viver em sociedade, realmente, não é nada fácil.

    nivaldo.oli@gmail.com

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  2. Olá Nivaldo!

    esse caso foi real, na hora, nem eu acreditei no que estava acontecendo e daí meu desejo de compartilhar com vocês, um abraço! Paty.

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  3. Não dá para entender!!! Certas atitudes do ser humano nunca entrarão na minha cabeça!!! Abraços Paty.

    Renata/DOE.

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  4. Oi Renata!

    Essa foi uma situação bem estranha e cômica... um abraço, Paty.

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