quinta-feira, 9 de junho de 2011

(Rapidinhas 1) Louça suja se lava em casa, por Paty

As pessoas vão até a Delegacia, pressupõe-se, motivadas por um problema, na busca de uma solução, ou mesmo uma orientação.  Aqui estou pensando a respeito de alguns motivos inusitados, por que não, inacreditáveis que apareceram lá pelo balcão – que naqueles momentos, mais parecia balcão de boteco ou assunto de salão -, mas era na verdade, a espera da DP e lá da memória vieram à tona esses episódios...
Louça suja se lava em casa

Passava do meio dia. O sol, sem ser convidado, entrava espaçoso pelas vidraças, aquecendo  todos contra a vontade, inclusive eu. O tempo, ao contrário, não queria sair do lugar e a tarde ia nesse ritmo, prometendo ser longa. Eu olhava ofuscada pela claridade e pensava que o período da manhã já havia me rendido atendimentos, cujo saldo pesava sobre mim, na forma do cansaço que eu sabia sentir. E foi ai que ela chegou.
Séria, compenetrada, levava consigo uma bolsa Louis Vuitton, que discretamente olhei, por ser um mimo de desejo implícito a cada mulher. A moça manteve a pose, à altura da bolsa e em questão de segundos me perguntei: será legítima? Meu lampejo de pensamento foi interrompido quando a garota deixou claro seu motivo de estar ali, na minha frente, no balcão que mais parecia uma sauna seca.
- Quero registrar uma ocorrência de ameaça.
- Como foi essa ameaça? Interroguei, iniciando meu trabalho, que é recheado de perguntas...
-Foi dentro da minha casa.
- Sim... E como foi? Quem a ameaçou?
- Foi minha cunhada a namorada do meu irmão.
- Hum... Ela mora lá com vocês?
- Não só namora mesmo. Ela está grávida dele, mas não mora lá... Ainda não.
- E qual foi o termo da ameaça? Qual o motivo?
- A louça. Ela ameaçou me dar uma surra se eu não lavar a louça toda.
- Como? Disse despertando da sonolência que silenciosamente me derrotava e era agravada pelo calor...
- É que eu moro lá com meu irmão e ela vai lá e fica sujando tudo e me mandando limpar...  Acontece que eu dei limpeza na casa e pensei: não vou ficar mais lavando louça para ela, não sou empregada! Ai eu deixei a louça suja, ela achou ruim, me deu uns empurrões e me ameaçou dizendo que se eu não lavar a louça TODA eu vou apanhar...
- Deixa ver se entendi: você mora lá, o interesse de manter a casa limpa é seu, e você, por causa de outra pessoa que nem lá reside, deixa a pia cheia de louças para fazer pirraça é isso? Mas de quem é a responsabilidade da casa? Sua ou da namorada do seu irmão que não mora lá?
- Minha. Mas ela só sabe sujar e, além disso, ameaçou me bater...
- Você não pode conversar com ela, junto com seu irmão? Resolver isso sem envolver a Polícia? Olha vocês vão ter um vínculo, ela está grávida e o bebê é seu sobrinho...
- Não.

- Você já pensou no que o juiz vai achar de começar uma audiência sobre o crime de Ameaça, por que você e a namorada de seu irmão se desentenderam por causa de uma louça suja? Louça suja se lava e se resolve é em casa, você não acha? Você considera isso um assunto de polícia?
- Eu tenho medo que ela me bata, quero uma ocorrência.
- E a louça? Perguntei sem fé no que ouvia...
- Vai continuar suja, até que tudo se resolva...
Não disse palavra. Não tinha mais o que dizer, só fazer...
Registrei a ocorrência então, por mais absurda que se apresentasse, ali estava uma cidadã e receberia seu atendimento. Nesses minutos que se passaram, enquanto registrava, permiti-me divagar no gasto público que envolveria aquele procedimento.
Seria iniciado com a intimação da vítima e autora para prestarem informações a respeito do desentendimento que culminou com uma ameaça, motivada por uma louça suja. Com sorte, as duas seriam localizadas em primeira tentativa, evitando a reincidida da visita com dois policiais, no mínimo e com a viatura. Em seguida, o relatório policial seria confeccionado e remetido ao delegado, que determinaria a instauração do Termo Circunstanciado e a emissão do pequeno dossiê para o judiciário.
No judiciário seria tombado – receberia um número, e atingiria a maioridade, tornando-se um processo capaz de atribuir responsabilidades penais. Uma audiência de Conciliação seria marcada e um espaço na agenda reservado. Na data combinada, um conciliador – Estudante garantindo horas de prática jurídica para a faculdade de Direito, tentaria implantar o diálogo que as duas moças, sozinhas, não conseguiram manter, e como não haveria consenso sobre quem tinha o dever de lavar a louça, finalmente, com novo horário na agenda, iriam deparar-se com o juiz.
Na sala de audiência, por se tratar de crime, cuja esfera é de interesse público, o MP atuaria oferecendo a denúncia, caberia então ao magistrado, condenar a autora por ameaçar a futura cunhada - Dona da louça suja e preguiçosa, ou absolvê-la e manter impune a folgada que emporcalhava a casa alheia, que dilema?
Pela experiência, e tomara, pelo bom senso, as pessoas desistem antes, muito antes de completar o rito processual. Sorte de quem realmente precisa da Justiça e economia para o Estado.
Agora o agente responsável pela ocorrência, esse sim, sem escapatória, foi - Querendo ou não, investigar o caso que envolvia a ameaça pela louça suja alheia.
A propósito, sobre aquela dúvida em torno da bolsa, depois desse motivo de ocorrência, conclui que a Louis Vuitton com certeza era fake.
 Paty.

10 comentários:

  1. Haja paciência nesse balcão da delegacia. O blog de vocês está ficando muito maneiro!

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  2. Olá Victor!

    Seu elogio é um incentivo para nós, um abraço!

    Paty e Lili

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  3. Se não fosse tão absurdo seria cômico!!
    Bjos minha irmã! Te amo!!
    Sarita Pereira

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  4. Sara,

    que bom que você veio nos prestigiar... te amo mana, bjs, Paty.

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  5. Paty, tiro o chapéu para seu profissionalismo! EU não teria resistido a dar boas gargalhadas na cara da sujeita, para mostrar a ela o absurdo de sua querela! Ainda bem que Deus põe cada um na profissão certinha... ;-)

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  6. Olá Fernanda!

    Nem sempre é fácil, mas é preciso manter a pose - Você entende né? um abraço Paty.

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  7. Olá Paty, esta é uma das muitas história de balcão de DP. Só quem vive ou sofreu no plantão sabe o quanto são ridículas as pendengas que chegam a nos pobres coitados do plantão. Quando contamos história semelhantes para amigos e parentes, eles acham que estamos inventando.
    Abraços,
    Ribeiro - P6

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  8. Legal Ribeiro!

    só quem passa entende, um abraço, Paty.

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  9. Paty,
    eu ri demais
    rsrs
    parabéns pelo blog, sempre que tenho um tempinho venho aqui ler vcs 2.
    Sou louca pela policia, espero estar entre vcs o qto antes
    bjos

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  10. Oi Regina,

    Estuda menina que o concurso vem ai, será ótimo recebê-la, estamos na espera e torcendo por você! beijo... Paty.

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