sábado, 30 de julho de 2011

Quem é Lili?



Agente da PCDF há seis anos. Aos 35 anos, longe das angústias dos 20, já sei um pouco mais sobre o que gosto, quero chegar aos 40 livre de preconceitos inúteis, ficar mais inteligente e menos séria. Será bom também se livrar da obrigação de ser tão jovem e feliz. Umas das melhores coisas que o tempo ensina é priorizar. Para mim nada é mais normal do que aprender maneiras simples de viver - faço terapia e massagem - e com o tempo aprendi que é melhor gostar de quem gosta da gente; passei a comer bem menos do que tenho vontade e entendi que conquistas sólidas requerem dedicação e tempo.  Sempre é tempo de se reinventar, muitas pessoas maravilhosas que conheço, so descobriram seu caminho após os 40.

 

Errar, dar um fora de vez em quando são coisas da vida e deveriam servir para tentarmos acertar da próxima vez.
As histórias do Blog serão na maioria autobiográficas, momentos que presenciei no plantão e também atuando nas seções de investigação, sempre dando ênfase a situações engraçadas, inusitadas.
Também escrevo sobre impressões e opiniões sobre fatos, leituras e viagens, tentando manter o foco ou melhor dizendo faço uma ligação disso tudo com os  temas que envolvem a atividade policial. Fui influenciada pela profissão, amigos, amores e até por filmes. Nas horas vagas me transformo numa devoradora de filmes clássicos.
Picasso dizia que é preciso muito tempo para se tornar jovem... há pouco tempo, decidi conhecer a Bahia, andar no frisbee do Parque da Cidade, praticar arborismo e usar aquela sombra preta do fundo da gaveta e, discordando do mestre acho que isso tudo tem mais a ver com liberdade do que com juventude. Estar no contrafluxo daquilo que é esperado pelo sistema custa caro. Gostar de vivenciar as coisas independente do prazer, da dor ou de sua duração é o melhor jeito de estar no mundo.

Dia desses, a escrivã Fran da DP, perguntou-me qual foi a melhor fase pela qual já passei. Agora, respondi sem pestanejar.

 Não sei se vou pensar desse jeito no próximo ano, mas venho tentando acreditar que entre pistola, algemas e batons existe alguém que pode fazer diferente. 



As telas são de Pablo Picasso um dos mestres da arte do seculo XX. É considerado um dos artistas mais famosos e versáteis de todo o mundo, criou milhares de trabalhos, não somente pinturas, mas também esculturas e cerâmica.

Por Lili



quarta-feira, 27 de julho de 2011

Virei Policial, por Lili


Já aprovada no concurso que me transformaria em Agente de Polícia, caminhava no centro do Rio de Janeiro e levei um baita susto ao  ouvir estampidos... Eram disparos de arma de fogo.

Avistei dois policias perseguindo um assaltante e mais disparos.

Corri para lado oposto. Mas me deu na veneta parar para refletir: “Agora corro do assalto, daqui alguns meses correrei para o assalto.”  

“Eu, euzinha? Isso mesmo, você Lili.”
 
Cresci em cidade pequena, ia a pé para escola e bolava traquinagens com as primas. Uma infância sem malícia, sem contato com o crime.
  

Compreendi que em breve não daria mais encarar a criminalidade com olhar blasé.

 
 Academia de Polícia da Polícia Civil - uma uma miscelânea de novidades: pistola na cintura, os primeiros tiros ao alvo; simulação de entrada; tiros de dentro de viatura; curso de defesa pessoal; técnicas de revista em suspeitos; como utilizar uma algema, etc.

 Ufa! Canseira?

Nada disso. Adrenalina.

 O treinamento foi exaustivo e, se vacilasse, pagava-se 30 flexões.

Já lotada em uma DP da cidade, realizei as primeiras campanas (ficar disfarçado num local onde é provável que ocorra um crime) na companhia dos policiais “antigões” e tudo pareceu mais simples. Logo na primeira, obtivemos êxito em prender em flagrante os assaltantes armados que estavam no interior de uma van. Houve tiros, mas ninguém se se feriu.


Hoje percebo que, quando estamos em equipe, a força e coragem se multiplicam. Naquela noite, pareceu uma tarefa normal realizarmos o flagrante e libertarmos as vítimas.
 
Olha como são as coisas, o receio que me possuiu naquele final de tarde nas ruas do Rio, nem de longe aparece no dia-a-dia da profissão. Acredito que a rotina nos concede cara, estilo e voz de comando policial.
 

Minha atuação tem sido gradual: seção de investigação de crimes de médio potencial ofensivo e plantão de 24h em cidade considerada tranquila; atuação em seção de crimes considerados de menor potencial ofensivo em cidade de criminalidade alta e, atualmente, seção de investigação de crimes violentos em cidade de altíssima criminalidade.

 E, tudo tem sido normal, como passar batom. Descobri que o meio faz “a-gente”.
 



                           Por Lili
Palavras esquisitas:

blasé:   (palavra francesa) adj. Que ou quem demonstra apatia, indiferença ou tédio em relação àquilo que o rodeia.
miscelânea: s. f.1. Obra composta de escritos sobre diversos assuntos.2. Fig. Confusão.
 


terça-feira, 12 de julho de 2011

CONCURSO PÚBLICO PARA A POLÍCIA (Parte 3), por Lili

Nesta terceira parte, termino de contar a odisseia que foi o Concurso Público para Policial Civil do Distrito Federal.

Como já havia dito, toda noite eu lia um capítulo do livro de Willian Douglas; e recordo-me de uma dica supimpa: um capítulo sugeria que, alguns dias antes da prova, o concurseiro parasse de estudar e, se fosse possível, viajasse para espairecer. Bastariam uns quatro dias longe dos livros, como uma forma de conceder à memoria um tempo para que a informação se consolidasse.



 Lido isto, uma semana antes da prova, rumei para a Ilha Grande, em Angra dos Reis/RJ: primeiro viagem de carro até o Pier de Mangaratiba, depois balsa – lá, o único carro que transita é a viatura da Polícia Militar. Quando a balsa se aproxima da ilha, ela vai apresentando sua exuberância – essa paisagem foi um deleite para olhos fatigados pela leitura contínua. Dias de sol, praia e sossego, em Palmas, local mais tranquilo do que a Vila do Abraão, onde rola o burburinho dos turistas.


De volta para casa, no dia seguinte: Dia da prova.

Ao final, saí da sala um pouco zonza. Minha irmã e meu cunhado me apanharam na saída e perguntaram se fora bem na prova? Respondi que não sabia, porque não tinha a mínima ideia.

Alguns dias depois, conferi o resultado e... Passei!

Tratava-se da primeira fase. Um mês a frente tive que retornar a Brasília para a prova de redação. Com o primeiro resultado adquiri confiança porque a matéria de português – que constitui a ferramenta da redação – eu estudara muito. Mesmo assim, passei um mês só elaborando redações. Para minha surpresa o teste de redação não foi no molde tradicional. Constavam alguns textos para serem reescritos e interpretados.  Quando me deparei com os textinhos, chamei o fiscal, deduzindo que me entregaram um prova errada. Treinei tantas redações que esperava um tema para elaboração de uma. Ele respondeu que aquilo era a prova mesmo.

Foi muito mais fácil resolver os textos do que elaborar uma redação que envolve inúmeros aspectos. Concluí que a primeira prova fora demasiadamente difícil, o que excluiu tantos candidatos que os aprovados já correspondiam ao número de vagas, acredito que por esse motivo todos se saíram muito bem nessa fase.

O próximo passo seria o Teste Psicotécnico. Tudo certo.

Vista de Brasília - em formato de um avião.

Outra viagem a Brasília. Agora para o Teste Físico. Fiquei radiante, afinal só faltava a etapa lúdica: correr, saltar e fazer musculação. Na prova para a Polícia Civil, diferentemente da Federal, a mulher não necessita realizar o teste da barra-fixa, o que, aliás, poucas mulheres dão conta.

No dia do teste físico, soube que minha irmã e mais alguns amigos foram assistir nosso suplício,;lembro-me que corríamos várias voltas em uma pista e sempre que eu passava perto da plateia eu ouvia uma torcida fremente: “Lilian, Lilian”. Fiquei envaidecida e tive sucesso nos testes. Logo depois, pensei com 800 candidatos e o teste sendo em ordem alfabética, era muito provável que a torcida era dedicada às outras Lilians presentes. 

Estava há uns seis meses em função do certame e ainda faltava mais uma excursão a Brasília, agora para apresentação de exames médicos. Tudo certo nesta fase também.


Em seguida, posse e entrada em exercício com a expectativa de para que lugar do Distrito Federal seria lotada. Fui parar no Núcleo Bandeirante, cidade mais antiga da Capital Federal, e de criminalidade média para baixa. Nesta satélite, está situado até hoje, em forma de museu, o “Catetinho”, primeiro endereço de trabalho do presidente Juscelino Kubitschek. A área ainda abrange a “Candangolândia” cidade onde residem “Candangos” - trabalhadores que se aventuraram em construir a cidade - e seus descendentes.

Hoje curto ser Agente da Polícia Civil do Distrito Federal e atuo numa seção considerada “de frente” (Investigação de Homicídios), numa Cidade Satélite com criminalidade alta.

Às vezes, em viagem a minha terra, no Paraná (Lapa e Curitiba), algum parente desinformado comenta:

- “A Lilian é Policial Federal lá em Brasília”.

Corrijo na mesma hora: " – Ops, Agente da Policia Civil do Distrito Federal”.

Receber sua carteira e pistola foi o laurel, dessa jornada.


Lili

lúdico  1. Relativo a jogo ou divertimento. = RECREATIVO 2. Que serve para divertir ou dar prazer.

fremente adj 1. Que freme.2. [Figurado] [Figurado] Que vibra de comoção, de entusiasmo, de cólera.

laurel  s. m.1. Coroa de louros. 2. Galardão, prémioprêmio. 3. Homenagem. 4. Manifestação de aplauso.