domingo, 21 de agosto de 2011

SAIA JUSTA, por Lili


Olha como são as coisas, num almoço de meio semana com uma amiga que, além de Agente e instrutora de tiro na Academia de Polícia, é mãe e uma baita atleta de nível internacional. Gleise Botelho representará a Polícia Civil do Distrito Federal nos Jogos Mundiais  de Policiais e Bombeiros, em Nova Iorque, a partir de 24 de agosto. Ela também competirá no Iron Man mundial.

E digo : Ela trouxe o ouro para a PCDF na corrida 10km. Parabéns Gleise!!!

Dito isso, filé mignon rolando, blá-blá-blá, e a Gleise comentou:

“Lili, o blog está bacana, mas será interessante vocês abordarem as dificuldades que nós agentes nos deparamos no dia-a-dia." E ela continuou dizendo que não podemos dissimular que em algumas situações a saia fica justa mesmo. O bandido, afeito a padrões e a estereótipos, que ditam que a atividade policial é profissão para homens, poderá, sim, desrespeitar uma Agente Policial. Continuou dizendo que certa vez, um preso lhe pregou uma bravata que a irritou: depois de alguns comentários descabidos lhe lançou um beijo, ensejando uma atitude rápida por parte de minha amiga, no sentido de se fazer respeitar...


Ela falava, e eu pensava: 

“Como escrever sobre um assunto, se não me recordo de já ter passado situações tais?”

A seção que componho é composta por seis homens e eu; e eles me tratam de igual para igual. Na rua, também não tenho problemas.

Será mesmo?

Os dias passaram as palavras da Gleise ficaram borbulhando... Até que me lembrei de alguns episódios que, sim, colocaram as agentes em situações delicadas. Seja por algum colega de trabalho ou mesmo por algum conduzido em flagrante à DP, com as emoções e cóleras retidas liberadas pelo abuso de drogas.

É claro que passamos por uma mudança de paradigma em relação ao papel da mulher na sociedade. Mesmo assim, não dá para fazer ouvidos moucos à premissa arraigada em nossa cultura por séculos, afirmando que mulher deve ser frágil e subserviente.


Dito isto, vamos aos causos que lembrei:

"Causo" 1 - Há uns seis anos, logo que entrara na instituição, compunha equipe de investigação: duas agentes e três agentes homens. Um deles - casado com uma agente de polícia e comprometido com a profissão - certo dia, na viatura em diligência, no meio da conversa, falou:


“Quando o bandido vê três policiais, sendo uma mulher, ele conta dois.”


A saia ficou justa, como sentir-me valorizada, trabalhando com alguém que me contava como invisível em diligências externas?

É claro que uma minoria pensa assim. Nesse instante, enquanto revisava este texto, li a frase acima para Hilton da minha seção, ele disse:

“É melhor o bandido não pensar desse jeito, senão vai ser pior para ele.”

"Causo" 2 – Foi no de 2008, quando eu compunha equipe de plantão. Outro agente, que não era da minha equipe fixa, puxou um assunto. Contou-me que cursava pós-graduação e o tema de sua tese era no sentido de que o número de mulheres que adentram os quadros da Polícia deveria ser reduzido e limitado, porque esta profissão não lhes caberia. Sua posição era firme, lembro-me dele afirmando que, além da mulher ter menos força física, o problema mais grave seria o cultural, pois as meninas são educadas de uma forma mais doce, suas brincadeiras não são agressivas, brincam de casinha e de bonecas, sendo que o papel mais adequado para elas seria cuidar do lar.   

Ora, apesar dos comentários acima, percebo que não é bem assim.

Recordei-me de mais dois causos:

"Causo 3" – Já não era do plantão, mas fui escalada para compor equipe naquele dia. Pelo fato deu ter sido agente plantonista durante três anos, sempre que sou escalada para cobrir um extra, já chego animadíssima.
E já estava lá um detido medonho que a Polícia Militar conduzira. Digo isso, porque o cara estava fora de si, zombando de todos e dizendo palavrões.

Não sei se devido às novas leis contra o uso de algemas, ela estava lá, xingando a sombra e sentado no banco dos réus sem algemas.
Por que o cara ainda estava solto com todo aquele alvoroço? Melhor deixá-lo assim, afinal a equipe não era minha.

Pouco tempo depois, entrava pela porta principal da DP e, para minha surpresa, o homem estava saindo sozinho. Deduzi estivesse fugindo, disfarçadamente, uma vez que caminhava devagar. E não é que era verdade!

Coloquei-me em sua frente e ele – acredito que fazendo pouco de eu ser mulher – fez menção de seguir pelo o lado direito, ao que eu o segui; depois para a esquerda e assim ficamos feito galos de rinha. Num relance, ele tentou fugir passando por baixo do meu braço, eu agarrei-lhe a jaqueta que vestia e não soltei. Tive uma luxação no dedo, mas o preso não fugiu. 

"Causo 4" -  É fato que  os homens possuem, em regra, mais força física.  Muitos que conheço têm orgulho da profissão; combatem e desvendam crimes. Por outro lado, pense leitor, quantas Agentes, Escrivãs, Peritas e Delegadas, Técnicas Penitenciárias vestem a camisa da polícia com gosto e saem em campo, tomam frente em investigações e flagrantes.

Menção especial às escrivãs, cujo trabalho é menos exposto na mídia, porém crucial ao funcionamento da instituição, além do que o quadro enseja, um aumento no número de profissionais.

 Ainda, lá na DP há uma Delegada, a Dra. Bruna, considerada no jargão policial “novinha” (porque pertence a última turma) que com sua argúcia, delicadeza e psicologia e, porque não dizer, beleza, consegue esclarecer os imbróglios, arrancando relatos e confissões de criminosos marmanjos.

Dia desses, um autor de crime grave, com evidências irrefutáveis contra ele, passou pela seção de investigação sem esclarecer as circunstâncias que faltavam para fechar nossa investigação, mas não foi que quando a doutora realizou o interrogatório ele contou tudo e ainda explicou onde jogou a arma do crime.

 É gratificante reafirmar aqui no Blog que nós mulheres – policiais ou não –  aprendemos dia após dia, mesmo que com nossas próprias errâncias, a enfrentar as adversidades do novo. Afinal somos mulheres, vaidosas, ora pois, e estamos aí no plantão, nas ruas, nas seções, nos presídios e nos gabinetes combatendo e investigando o crime, arriscando nossas vidas no intuito de cumprir a contento nosso papel dentro da instituição. 



Leitor, caso lembre de mais algum “causo” ou opinião vamos crescer esse debate no comentário da postagem.

                      Por Lili

dissimular - Fingir que não vê, não ouve ou não sente; fazer vista grossa sobre.v. tr. e intr.

mouco adj. Surdo.   
medonho Que causa medo.2. Tremendo, pavoroso.s. m.

imbróglio Situação confusa.

s. m.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

QUEM SALVA A POLÍCIA? por Paty



               Definitivamente, os bombeiros. O policial é preparado para lidar com o crime e seus autores. As pessoas são ilimitadas em suas pretensões para o mal feito e os bandidos, gradativamente, se superam inovando nos golpes e nas formas de conseguir dinheiro fácil.
 Não se privam da sagacidade e do engano, como exemplo o tão já manjado golpe do sequestro ou do bilhete premiado. Outros vão além, quando fazendo uso da covardia, impõem o medo pela posse de uma arma, momentos que se acham bastante valentes e aterrorizam a vítima pela possibilidade da perda repentina da vida. Sempre buscando ações rentáveis e menos arriscadas, elegeram o crime do momento: o furto aos caixas eletrônicos, situação que o ladrão, debochando do limite rosinha de percurso, já consegue faxinar o dinheiro marcado.


Para esse tipo de gente: a algema, a lei e a pena – isso considerando um sistema de leis penais que fosse ideal, o que não é o caso do Brasil.


E as outras pessoas que costumam frequentar o balcão e os bancos da delegacia? Sim! Aqueles um tanto desligados da realidade que em nosso íntimo, percebemos serem os malucos que também protagonizam seu papel na rotina de uma DP.


Há alguns anos, dos quais sinto muita saudade, eu saíra da delegacia para almoçar e deixara o ambiente tranquilo e calmo. Naturalmente, não é de se surpreender que em minutos, tudo pode ficar agitado e foi isso que ocorreu. Quando retornei, tava lá o rapaz...


A equipe da polícia militar havia conduzido um homem, que coberto de sangue, com a boca torta, tentava balbuciar ao ritmo de bêbado, qualquer coisa que não se conseguia compreender... Soubemos então que ele havia caído da própria altura de rosto no chão, ferindo a boca e provavelmente, pelo estado que se encontrava descontrolado, fraturado o maxilar. Sorte dele, que estava bêbado... E que bebida! Pois parecia ignorar a dor e agitadíssimo, gritava horrores, cuspia e pintava de sangue o banquinho dos réus...


O banquinho dos réus estava posicionado junto a uma parede, onde chumbada, havia uma barra de ferro que utilizávamos para algemar e limitar a mobilidade dos autores e suspeitos, enquanto se faziam algumas verificações. Eventualmente, pessoas descontroladas e que sangravam muito, comprometendo nossa segurança e saúde, também eram ali mantidas e ele estava lá.


A parede, o banco, o chão e até – não disse que eles se superam, até o teto, ele havia conseguido atingir, cuspindo sangue. O que fazer numa situação daquelas? Não havia técnica para o manuseio do ferido, nem medicação calmante, não fazia parte do nosso trabalho a habilidade em socorro médico... Então recorremos a eles.


O rádio já havia sido acionado e a equipe do bombeiro já estava a caminho. Nesse intervalo de tempo, minutos, mas que devido à situação parecia uma infinidade, o sujeito gritava, urrava e dá-lhe sangue. Dentro da própria delegacia há também os curiosos, que surgem um a um, borbulhando do expediente. Ao ouvirem o agito no balcão – onde funciona o plantão, vão se aproximando, trazendo alternativas, mas sem voluntários para a ação:



- Amordaça ele!


- Que coisa!


E não podiam faltar as perguntinhas clássicas: 


 - O que está acontecendo? Tá envolvido em que? O que é isso ai?


E numa dessas, o fato chamou também a atenção de uma das delegadas, que cercada de assessores, foi até o local onde o homem dava trabalho...


- Solta ele agora! Determinou a delegada, ninguém menos que a chefe da delegacia e encheu a equipe de perguntas, cujas respostas eram dadas numa sequência de sins: Já chamamos... Já vem... Está chegando... Já tentamos...


Diante da ordem expressa de soltar o sujeito, meu colega resistiu:


- Ele está sem controle, ponderou receoso de que a ideia fosse mantida...


- Coitado! Solta ele agora gente, o homem tá machucado!


Quando os candidatos a banho de sangue se aproximaram, o homem, ignorando de quem se tratava, dirigiu-se à delegada com os olhos esbugalhados, o peitoral encharcado de sangue e gritou as únicas coisas que consegui compreender, mas por questões óbvias, serão justo essas que não vou descrever, enfim: chamou-a pelos clássicos palavrões disponíveis que conhecia e que sua mente alcoolizada o fazia lembrar...


- Prende! Prende! Prende! Foi a mudança de opinião mais rápida e certeira que presenciei. Saiu então sem gracinha... Não importa, não era culpa dela. Naquela situação a linguagem policial não adiantaria, somente a dos bombeiros.


Eles chegaram se aproximaram e o homem entendendo que seria socorrido, colaborou. Sua boca foi enfaixada e o silêncio dominou, conversavam entre si sobre a situação e para onde o levariam. Na maca, o sujeito deitou-se e foi levado para o Hospital de Base, provavelmente.  A nós, restou a sangueira.


Outros casinhos também nos fizeram lembrar o quão importante são os nossos colegas... Quando os bebezinhos afoitos, já mostravam desobediência e antecipavam sua chegada fora do ambiente propício do hospital, ainda na delegacia.








E nos momentos que os malucos achavam que suas atitudes mal feitas poderiam ser revistas se batessem com a cabeça na parede e se ferissem ou se gritassem e perturbassem bastante. Lá estavam eles, pacientes e compenetrados, ouvindo o doido que quase por milagre, na frente deles se comportavam...


Esses dias presenciamos a situação de nossos colegas bombeiros do Rio de Janeiro, onde com um salário simbólico, cumprem suas funções salvando vidas. São na verdade heróis, porque mantêm suas famílias com um inacreditável soldo.


Foram as ruas para serem ouvidos e sofreram punição por não mais se conformarem com uma situação insustentável. O duro foi ainda o governador do Estado, Sérgio Cabral, referir-se aos bombeiros com termos pejorativos.


Posterior ao caso dos bombeiros, foi noticiada na imprensa a intenção de um deputado federal, originário do Rio de Janeiro, que preocupado com a situação dos banqueiros falidos, estava muito interessado em levar adiante uma Medida Provisória, cujo teor obrigará o Estado a comprar desses banqueiros títulos podres com valores superfaturados, levando-os de falidos a milionários...


No momento que li essa notícia, pensei que aquilo era fábula e acordei no Brasil, onde essas coisas são possíveis. Deparei-me com o foco de nossa sociedade – a massa que grita, vibra pelo futebol, pelo Gaúcho que é Mengo, que corta os pulsos se o seu time perde e se deixa ficar passivo numa situação dessas e outras mais...


Logo depois de tratar com desrespeito a situação dos bombeiros, o governo do Rio ofereceu uma proposta medíocre - 48% - cujo ápice, foi o tal aumento dividido em inacreditáveis 48 parcelas... Tão inacreditável como a intenção do deputado em tornar milionários,  com o dinheiro público, banqueiros falidos.


Em seguida ao embate com a corporação dos bombeiros, o governador do Rio mergulhou em sua fragilidade pessoal: escândalos em torno de favorecimentos a empresas de amigos, acidente com a morte de pessoa que lhe era próxima e quase ele próprio iria precisar ser resgatado pelos bombeiros da Bahia...


E os bombeiros? Quem salva os bombeiros?


               Não sei. Fato é que num país sugado pela corrupção, é provável que os bombeiros continuem no vermelho.


Paty