domingo, 4 de setembro de 2011

A TROUXA DO TROUXA, por Paty

                O dia começou lindo, pena que muito seco. E com o seguir das horas, o calor ia se intensificando e a secura mudou minha opinião: de lindo ele foi rebaixado gradativamente à desagradável. Essa é uma característica de Brasília, que até me fez pensar em desistir dela. Nos meses da seca, a única coisa que nos resta é a beleza do por do sol. No mais, a poeira e a secura são nossos companheiros antes que anoiteça.
                Ainda nesse período estamos lá, o nosso atendimento permanece por 24 horas e as pessoas continuam a precisar da polícia também. Hoje, o local onde trabalho está muito agradável. Completamente diferente da estrutura precária que alguém, um dia, teve coragem de chamar de delegacia.
                Mudou-se a administração e com ela algumas prioridades. E para nossa sorte, resultou em uma estrutura reformada, arejada, limpa, que juntos nos empenhamos em construir. Mas como todo ambiente na Capital, não está imune aos efeitos da seca e do calor.
                Nessas condições, sair de casa só por necessidade. E comparecer em uma delegacia só por prioridade. Quando se trata de defender a própria pele, ou recuperar um patrimônio, não dá para questionar: isso é motivo que basta. A sensação de impotência diante da invasão do ladrão, que sem limites e dor na consciência, retira levemente aquilo que, após trabalho duro e economias, levou-se um tempo para conseguir.
                Compreendo perfeitamente, sou voluntariamente ouvinte dos desabafos e até me arrisco a expressar minha indignação em algumas conversas onde, saio de minha função pública de agente e me misturo com o público, sensibilizando-me e absorvendo as mais diferentes reações. A frieza é necessária, mas a humanidade é indispensável no trabalho de polícia.
                Há os que sabem da necessidade de virem à delegacia, mesmo que contra gosto, já que é o único recurso que dispõem pela perda patrimonial que tiveram. Outros, porém, adoram comparecer e fazem da sua visita uma rotina, onde deixam aquele “Oi!” cordial e estendem o olhar ao redor, curiosos a respeito do que se passa. Trazem, às vezes, alguns petiscos que insistem em partilhar conosco, quem sabe, como uma forma de “passe” pela presença tão constante em um local, que no geral, se quer distância. Isso em se falando dos voluntários.
Mas recebemos também os intimados. Aqueles que figuram como atuantes nas histórias narradas nas ocorrências, sejam figurantes ou protagonistas e conforme são ouvidos, vai se delineando seu papel no caso: de vítima a autor. Alguns são convidados a comparecerem e outros intimados, mesmo.
A intimação consiste em um chamado formal, que caso não seja atendido em três oportunidades distintas, pode resultar na busca e condução obrigatória da pessoa. Isso quase sempre não ocorre e quando é necessária, praticamente se trata do protagonista vilão: o bandido.
 Sim, porque o cidadão logo quer saber do que se trata. Afirma que nunca esteve em uma delegacia – que horror! Entre outros pavores que os levam a se apresentar rapidinho...
                Ele estava lá, na situação de figurante – Entenda-se: testemunha.

 Mas logo, logo, receberia uma promoção em seu papel. O período da tarde, por exceção, mostrava-se tranquilo, tendo apenas a sua pessoa, que aguardava. Ele havia se apresentado por força de uma intimação. Estava ali para colaborar, mas por sua inocência e também, por nos subestimar, acabou se enrolando.
                Um colega passou pela equipe do plantão em direção a saída e eu o acompanhei com o olhar e ele, de relance, olhou para o rapaz sentado. Parou, voltou e, com ar de dúvida, aproximou-se e checou algo. Chegou até mim, chamou por outro colega e nos fez levantar e apresentou-nos o motivo de sua admiração.
                Então eu vi. O rapaz estava sentado e embaixo de sua cadeira, traiçoeiramente, havia caído de seu poder uma trouxa de maconha. Ele percebeu que chamava nossa atenção, mas despreocupado, ignorou a razão. Aproximei-me e peguei a trouxinha de droga, fazendo a pergunta óbvia, mas necessária:
- Isso aqui lhe pertence? Questionei sorrindo, confirmando aquela velha premissa: de tudo a gente vê em plantão...
- Como? Respondeu remexendo nos bolsos e ficando pálido ao perceber que a trouxa o deixara com cara de Trouxa na delegacia...
- É meu sim, senhora...
- Então me acompanhe, sente-se aqui, ao tempo que eu o apresentava para o tão já frequentado banco dos réus...
                Ele resignou-se. Não acreditou que a própria droga, tão proibida, justo ela o havia traído e denunciado. Limitou-se na justificativa clássica:
- Sou viciado.
                Expliquei-lhe que seria lavrado um Termo Circunstanciado contra sua pessoa. Benesse da lei brasileira. Esclarecendo, o ordenamento jurídico prevê que para os crimes cujas penas não ultrapassem os 02 anos de detenção, o procedimento de flagrante seja realizado de maneira mais simplificada e objetiva e a prisão efetiva está condicionada à recusa do autor em se comprometer a comparecer em juízo, quando solicitado.
                Embora autor de crime, o envolvido não é burro e naturalmente, em sua maioria, os autuados se comprometem assinando um documento e são liberados.
                Especificamente naquele caso, por se tratar de uso de drogas, o Termo é confeccionado, mas as penas previstas atêm-se à advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo; caso o usuário se recuse a cumpri-las será submetido à admoestação verbal por parte do juiz e aplicação de multa. Não há pena restritiva de liberdade.
                A punição mesmo vem é para o policial que, com a equipe reduzida é sobrecarregado e dependendo da hora, tem seu horário de almoço ou jantar comprometido em razão de que, no mínimo, dois colegas se deslocam para apresentarem a droga no Instituto de Criminalística com fins de perícia e recolhimento, ao tempo que levam o autor para ser examinado no Instituto Médico Legal, onde deverá urinar para que a substância da droga seja detectada e se verifica se não sofreu agressão física.
                E assim foi feito. E o rapaz, impaciente, considerou que estávamos demorando no término do procedimento e que ele queria e precisava ir embora. Quando soube que iria para o IML revoltou-se:
- Mas que absurdo!
Por instantes, acho que ele se esqueceu de sua condição na DP. Isso é esperado quando o autor sente a impunidade para seus atos. Ouvi uma vez, duas, três e já perdendo a paciência, visto que o atendimento não havia parado no balcão e o dono da trouxa queria prioridade, mandei que se calasse, visto que aquela demora era a única punição que ele teria e lembrei-o de que a droga que trouxera para a delegacia o denunciara e que ele se indignasse com ela.
Frente ao chamado e por ser o único e responsável pela situação, calou-se. E mais tarde, foi livre nos agradecendo.
- Não fui eu quem te liberou foi a Lei, tive que lembrá-lo. Pensando bem, avaliando como as coisas estão, não é lá muito bom que se saiba disso... E mais: com uma legislação dessas, quem é trouxa mesmo?
Paty.



23 comentários:

  1. disse tudo em: "mas a humanidade é indispensável no trabalho de polícia."

    muito bom, Paty!!!

    bjos

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  2. Oi Regina,
    espero que esteja curtindo nossas histórias do nosso cotidiano, bjs! Paty.

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  3. com certeza, direto eu venho aqui ver se tem novas postagens, e sempre que tem eu adoro!!!!

    é fantástico poder acompanhar a rotina de vocês, dá para saber mais menos como funciona a coisa

    ;)

    bjo

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  4. Olá meninas..tudo bem?

    A Regina indicou o blog...somos parceiros nessa vida de concurseiros da PF.
    Inclusive tenho um blog a respeito também.

    Muito bacana o blog de vocês, é legal ver toda essa rotina, não vejo a hora de fazer parte dela.

    Sobre o post, nos faz pensar, como estão as coisas, levar maconha pra delegacia, tsc tsc tsc.

    Parabéns pelo blog e pela profissão!
    Voltarei mais vezes.

    inté

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  5. Oie, interessante o seu blog. A senhorita sorriu após perguntar se a droga era do rapaz?
    =)

    Impressionante ele cheirar proximo da DP, será sensação de impunidade ou estrategia pelo fato dos policiais não acreditarem ness possibilidade?

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  6. Dr. Lázaro, acho que essa atitude é consequência da droga heheheh...fudeu com os neurônios...

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  7. Lili, gostaria de sugerir um POST ou saber sua opinião sobre a sumula vinculante 11 do STF acerca da restrição do uso das algemas... Além disso queria saber se a algema dói nos pulsos ??? Afinal pra ninguém querer recebê-las deve haver alguma explicação.

    Eu li seus posts anteriores... gostei da expressão "sente aqui no banco dos réus" srssr.

    Outra sugestão era saber se esses bandidos tão valentes com armas e punho e olhar sanguinário sentem arrependimento ou CHORAM diante do interrogatório ou PRISÃO???

    Fica na paz de DEUS

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  8. /olá moças!

    Vi uma propaganda de vcs no CW... uma idiota lá veio cutucar, mas já dei uma pequena resposta... se quiserem complementar, fiquem a vontade.

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  9. Olá Futuro Federal!

    Gostei do nome e da positividade, rs... sabe estou estudando para o concurso de delegado da PF, tomara que cheguemos lá.

    Valeu por visitar o blog; o trabalho policial é bem interessante, você vai ver, um abraço! Paty.

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  10. Oi Dr. Lázaro!

    Eu sorri por não acreditar na situação... as pessoas subestimam a polícia e realmente, acreditam na impunidade.

    Quanto a sugestão de post, achei legal e vale a pena refletirmos sobre o uso de algemas... ela representa segurança, não só para o policial, mas para o preso também. Esse assunto é bem interessante, valeu! ah! e não machuca não ok, rss...
    Paty.

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  11. Vitão!

    valeu pela consideração com a gente, um abraço, Paty.

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  12. É sempre bom ter o esclarecimento de uma especialista no assunto! Sempre passarei por aqui para ver o seus "causos". Tinha que ter o sindicato das mulheres policiais, falei com a novinha do site mulhernapolicia para ela ser a presidente..

    Sinceramente Paty é impactante ver uma policial em ação. É diferente, é encantador. Só o bandido não deve pensar assim rsrs! Quem sabe se houver um sindicato das mulheres policiais, vocês possam exigir igualdade de vagas nos concursos policiais, maior participação feminina na captura dos criminosos e o devido respeito e consideração que vcs MERECEM!

    Vá lá no meu blog, tenho várias idéias legais. abraços

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  13. Doutor Lázaro,

    Observei que a reação do bandido é proporcional ao respeito que se impõe, tanto para homem quanto para a policial mulher e para isso não é necessário truculência. Acredite: a postura, o olhar e o tom de voz dizem muito... não podemos ignorar que as diferenças próprias da compleição física podem ser um estímulo à resistência e ao desrespeito, mas isso pode e deve ser prontamente corrigido pela convicção da policial em se fazer atender no que pretende.

    Vou visitar seu blog, deixe-nos mais idéias legais! um abraço, Paty.

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  14. Ah!!! especialista?! não, não, tenho muito a aprender, estou longe disso, rs...Paty.

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  15. Oi Futuro Federal, volte sempre aqui no Blog. Espero que em breve seja um policial. Até Breve!

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  16. Oi, Dr. Lázaro, obriga pela visita no nosso Bloguinho. Sabe, na PCDF não há limitação para as mulheres adentrarem os quadros. E, para nossa sorte, o teste físico é realizável, diferentemente da PF, onde, igualmente não há limitação numérica para as damas concorrerem, mas , em compensação, o teste físico é de lascar.... erg erg erg
    Até breve!

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  17. Esses casos policias são bem interessantes. Fico imaginando a primeira prisão das senhoritas!

    Ser policial deve ser fascinante: Porém só me interesso pelo PCDF e pela PF!

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  18. Olá meninas e um oi a todos que postaram seus comentários. Respondendo à pergunta do Dr Lázaro sobre a valentia dos bandidos, digo: Caro lázaro, o criminoso só é valente quando está armado ou no momento em que pratica o crime tem alguma vantagem que o coloca em posição de subjulgar sua vítima. Quando a polícia prende a coisa toda muda, o valentão fica humilde, faz cara de coitado e quem não tem contato com esse tipo de gente, digo, pessoas do público, fica comovido e achando que o bandido é vítima da polícia e de uma sociedade injusta. Tenho muitas opiniões que não posso postar mas, gostaria muito de comentar sobre questões policiais. Gostei da idéia de comentarmos sobre a Súmula Vinculante número 11 do STF.

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  19. Paty, pode acreditar: Freud explica!(risos) O 'maluco' teve um brilhante, maravilhoso e patético Ato Falho! Bem feito!!!

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  20. E ai Fernanda Suhet!

    Ainda bem que em nosso trabalho, não existe ação perfeita, rs... bj! Paty.

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  21. Lili, gostaria de sugerir um POST ou saber sua opinião sobre a sumula vinculante 11 do STF acerca da restrição do uso das algemas.. Algema não dói, mas deixa o algemado numa posição mais passiva.
    Aquele abraço, Lili

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  22. O Profissional: Vc sacou muito bem em seu comentário a condição do bandido depois que a "casa caiu" gostei. Volte sempre, abraços.

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  23. Dr Lázaro: estou aqui tentando lembrar da primeira prisão para uma postagem...

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