sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Medico, a Polícia e a Religião, por Lili



É por isso que a vida é boa, tive uma conversa com um médico daqueles que dá gosto de trocar uma ideia.

Perguntou-me se já havia assistido a Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles (Cidade de Deus), baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago (prêmio Nobel).
Respondi que sim, e que na época passei um baita medo no cinema, uma vez que fui só, e a película é de uma densidade psicológica  que merece ser observada mais de perto.

O longa exibe com mordacidade uma história insólita, na qual os habitantes de uma cidade vão se tornando cegos. Nesse contexto, o filme acompanha as agruras de um grupo de pessoas que foram remanejadas para uma espécie de galpão, reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos.

 Nesse caos, a capacidade para o mal do ser humano toma proporções inimagináveis.  Mesmo condoída com o sofrimento, saí da sala louvando o diretor pela força e imaginação criativa do filme.

Voltando ao bate-papo com o Dr. Alexandre - tratava-se de uma consulta médica mesmo - ele disse-me que a maldade dos personagens do filme seria a verdadeira faceta da sociedade quando não há regras: mulheres violentadas, pedágios cobrados mesmo sem ter no que usar o dinheiro e por aí vai...

O leitor pode pensar que a trama de Ensaio sobre a Cegueira é pura ficção, mas fazendo um paralelo com o filme nacional Anjos do Sol, de Rudi Lagemann, onde meninas adolescentes são violentadas e até mortas em um prostíbulo no garimpo brasileiro, fico perplexa em constatar até onde o ímpeto cruel do ser humano pode chegar; e olha que nesse longa houve pesquisa no sentido de retratar com veracidade os fatos.
Adolescentes que atuaram em Anjos do Sol após muitos testes. Ah, sim, elas não eram atrizes.

Conversa vai, conversa vem, o Dr. Alexandre fez o comentário que rendeu esta matéria:   
“A polícia e religião fazem toda a diferença, no sentido de funcionarem como um freio para atrocidades humanas como as que vemos no filme do Meirelles.”

Pelo sim, pelo não, sou policial, e achei superinteressante a colocação dele.
Discutir religião conduz a acalaroda polêmica que se desdobra nas mais desencontradas direções, mas confesso que até então, pensava que a religião somente seria útil por seu fator agregador social e para acalmar os corações daqueles que acreditam no seu cantinho lá no céu, fora isso, lorotas.


Pensando melhor, não, não é só isso, a religião tem o seu lado positivo, assim como a polícia, reprimindo e contendo ânimos exarcerbados.

Seria bem melhor que as vilezas de Anjos do Sol e Ensaio sobre a Cegueira só tivessem espaço na telona.

Lili (P6)

condoído: que toma parte na dor alheia. Compadecido.
mordaz: que morde. Mordente, corrosivo. Satírico.

insólito: extraordinário, desusado, fora do comum

firula: floreio, rodeio, uso de palavras ou construções desnecessárias.




quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FLAGRANTE NA DP, por Paty

               

Plantão é surpresa e enfrentá-la com três agentes de polícia é pesado. Por mais tranquilo que seja o dia, a noite não perdoa, ela suga, quase nos vence. Quando na madrugada, passam as duas horas e meia de vigília com o silêncio e a expectativa do fator surpresa, dou-me por superada.


                Somente quem vivenciou o transcorrer de doze horas, após um dia de trabalho, sabe o peso que os minutos têm sobre nós, até o dia amanhecer... Mas é isso. Se eu não fizer outro fará, afinal, as frases já são conhecidas: “não tem pessoal”, “o plantão não é prioridade” - fato que ninguém admite claramente -, mas que é consenso velado; embora seja o cartão de visita da delegacia e blá-blá- blá...


                Presa pelo anonimato, sem rosto definido, fico mais livre para escrever e também errar, por que não? Mas vou arriscar um pouco.




No último serviço, dois de meus colegas tiveram que se ausentar para apresentar um menor infrator na delegacia competente. Por questões matemáticas, não teve jeito: fiquei só e era início da noite.



                Não havia novidade até a Polícia Militar apresentar um casal, cuja jovem não parava de chorar e ostentava um barrigão próprio dos nove meses que completara. O rapaz, transtornado, mal conseguia balbuciar as repostas:


- Seu nome? - Trabalha? - O que você pretende?


                A moça não dava trégua no choro e eu precisava trabalhar. Então insisti:


- Querida, você precisa me ajudar, quero saber o que ocorreu? Você tem que me contar para eu saber o que fazer...


               Há muito custo, após uma sessão de vômitos, pensei: bombeiros! O neném vai nascer aqui mesmo. Mas não, foi alarme falso. O bom é que eu estava fria no procedimento, não fiquei nervosa. Gente, depois de algum tempo não tem jeito, a maturidade policial chega e você vai se superando diante com as situações... E ela me contou estar vivendo como o rapaz há nove meses,  - suponho desde a gravidez - ele a trouxe para viver em outra cidade, deixando para traz três outros filhos menores que residiam com a avó e, naquele momento, a discussão se iniciara por que a avó iria viajar e a mãe estava sendo chamada para cuidar dos outros filhos, fato que não agradou o companheiro, que avisou:


- Se você sair de casa, enfio uma faca na sua barriga!


E estava lá a situação. Agora eu entendia...  Voltei-me para o rapaz e perguntei:


- E ai? E ele disse:- A senhora tem filhos?





- Não é esse o caso, quem faz as perguntas aqui sou eu, cortei-o. Afinal quem estava trabalhando ali era eu, só me faltava ter que responder perguntas... Ele limitou-se a dizer:


- Para a casa da mãe ela não volta, com filho meu não...


                Assim mesmo. Determinado, ele em poucas palavras confirmou sua ameaça, agora de maneira indireta. Eu pensava, momento em que minha avaliação sobre o tal casal foi interrompida por uma gritaria louca que vinha de passageiros de um coletivo em frente à DP.




Explico. Em frente à delegacia há uma parada de ônibus, daí a proximidade. E um sujeito maluco achou justamente ali um ponto para efetuar um roubo a coletivo, pode?! Pelo menos foi isso que umas cinco pessoas desesperadas, chamando por ajuda, davam a entender.


                E eu?  Tinha na minha frente um cara que pretendia antecipar a chegada do filho de uma forma não convencional e um roubo a coletivo em andamento. Quantos agentes éramos naquele momento para sairmos em segurança e em vantagem sobre o bandido e deixar alguém para cuidar das instalações da DP – onde pela natureza do serviço e pelo equipamento que dispomos, as instalações requerem o máximo de segurança?  Lembra-se? Éramos três, dois estavam na Asa Norte e eu sozinha com o rádio! Isso mesmo! Chamei a CIADE – para quem não sabe, trata-se de nossa central de atendimento e comunicação com as demais unidades da PCDF. Aquilo que é falado no rádio é copiado pela rede, que está sintonizada na faixa e no meu caso, faixa três. Meus próprios colegas, se não estivessem dentro da viatura naquele momento, não saberiam o que se passava... Estavam longe. Eu precisava de outro apoio.





                De imediato chamei prioridade pelo rádio. Quando ouvimos prioridade, quem está falando dá a preferência e permite que a prioridade se antecipe, os demais passam a prestar a atenção.


- CIADE DP chamando, prioridade... Situação de roubo a coletivo em andamento, uma agente de polícia com outra situação de ameaça e partes na DP, vou atender ao local, peço apoio.


                Deixei o rádio, de arma em punho, mandei que o autor não se levantasse – detalhe: minha algema tinha ido para a Asa Norte, mas com voz firme, mandei que não se levantasse e saí para saber o que de fato ocorria...


                Observei que alguns corriam em perseguição ao suposto assaltante, momento em que me assombrou a lembrança dos equipamentos na delegacia – arrepiei. O que fazer? voltei... O rapaz permaneceu sentado, e a moça, assustada, havia parado de chorar. Menos mal.


                Para minha surpresa, as poucas respostas que surgiram no rádio foram para informar que não haveria apoio ou deslocamento.


                Confusões em delegacia não me surpreendem. Lá é local natural de problemas e eu sei disso. O que me surpreendeu foi a falência do cuidado e da prontidão que deveríamos ter uns com os outros enquanto policiais; e eu afirmo que a falta de resposta não foi pessoal, quem copiava não sabia o rosto de quem solicitava ajuda, sabia apenas que era uma policial em situação de desvantagem e que estava nas proximidades. Onde trabalhei deixei amigos e as mudanças de delegacia, poucas por sinal, aconteceram como movimentação natural do trabalho.


                Eu prezo pelo anonimato. Ele me confere liberdade para escrever e expor minhas impressões sem maquiagem. Por isso, gente, não foi nada pessoal, foi mesmo institucional.


                O desfecho? Só eu estava e só as coisas se resolveram... Por enquanto.






domingo, 2 de outubro de 2011

Cachorros na Delegacia, por Lili

Veja só, quem imagina que na delegacia só lidamos com o crime se enganou, especialmente nas cidades menos violentas, é praxe chegar muitas confusões.  

Vejam esta comigo:

Manhã de domingo de Plantão – a mais tranquila da semana - eu estava no balcão da DP do Núcleo Bandeirante e, num repente, se aproximou um rapaz trazendo seu cão labrador pela guia. Estava atônito, vermelho, descomedido, segurava uma folha de papel na mão e esbravejava que estava dentro da lei e que ele e seus amigos tinham o direito de adentrar qualquer estabelecimento comercial...


 Nesse momento, alguns homens e mulheres, todos também trazendo cães pela guia, encheram o hall da Delegacia. Eram muitos falando ao mesmo tempo e poucos agentes presentes.  O caso já era meu, que dei o primeiro “bom-dia”.

Por fim, mas não por último chegou o dono do restaurante de onde toda aquela galera saíra. Seus olhos estavam assustados, quando furioso me explicou:

- Senhora policial, eu chamei a polícia. É um absurdo, essa cambada que está aqui adentrou o meu restaurante para almoçar, carregando toda essa quantidade de cachorros. Eu os proíbo, é antigiênico e irá assustar os outros clientes.

E continuou: -Eles estão dizendo que são cães para cegos, mas dá para perceber que eles enxergam muito bem.

Pedi silêncio e perguntei ao primeiro rapaz que entrara com o cão, e que parecia ser o líder dos demais, o que ele tinha a dizer:



- Pois eu já expliquei para esse senhor aí, mas ele se nega a entender e respeitar a lei. Somos um grupo de cuidadores voluntários de cães-guias da raça labrador. Os adotamos por um período, até que cheguem à idade ideal para passarem por outro treinamento mais específico para, posteriormente, servirem de cães-guias a deficientes visuais. Estamos estritamente dentro da lei. Além do que, somos orientados a frequentar qualquer estabelecimento comercial na companhia dos cães. Aliás, eles ficam com a gente justamente para isso. Nós ensinamos os animais a frequentar todo e qualquer lugar público para que, no futuro, guiem seus donos desprovidos da visão.
O rapaz apresentou a fotocópia de uma lei que trazia consigo para provar o que dizia e nervoso  continuou:

-  Hoje, combinamos  um encontro dos cuidadores de Brasília e viemos almoçar nesta satélite.

O proprietário, que meses antes tivera outro restaurante multado e fechado pela administração devido a reiteradas ocorrências de som alto, virou para mim e perguntou:

- Existe esse treinamento do qual ele está falando?

Respondi que existia. Já lera algumas reportagens sobre a adoção temporária desses cães por cidadãos e expus a ele o que sabia sobre o assunto.

Depois de algum tempo e muita conversa, proprietário entendeu a situação. Mas, mesmo assim, afirmou que iria voltar para sua terra porque em Brasília era complicado demais trabalhar. Ele pediu desculpas aos cuidadores e estes decidiram almoçar em outro local.  Antes de deixar a DP, ele virou para mim e disse:

- Mas a senhora deve concordar comigo que não precisavam ser tantos cães de uma só vez, não é verdade?

Sorri... amarelo.
Lilian Angelotti
 agente da PCDF