quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FLAGRANTE NA DP, por Paty

               

Plantão é surpresa e enfrentá-la com três agentes de polícia é pesado. Por mais tranquilo que seja o dia, a noite não perdoa, ela suga, quase nos vence. Quando na madrugada, passam as duas horas e meia de vigília com o silêncio e a expectativa do fator surpresa, dou-me por superada.


                Somente quem vivenciou o transcorrer de doze horas, após um dia de trabalho, sabe o peso que os minutos têm sobre nós, até o dia amanhecer... Mas é isso. Se eu não fizer outro fará, afinal, as frases já são conhecidas: “não tem pessoal”, “o plantão não é prioridade” - fato que ninguém admite claramente -, mas que é consenso velado; embora seja o cartão de visita da delegacia e blá-blá- blá...


                Presa pelo anonimato, sem rosto definido, fico mais livre para escrever e também errar, por que não? Mas vou arriscar um pouco.




No último serviço, dois de meus colegas tiveram que se ausentar para apresentar um menor infrator na delegacia competente. Por questões matemáticas, não teve jeito: fiquei só e era início da noite.



                Não havia novidade até a Polícia Militar apresentar um casal, cuja jovem não parava de chorar e ostentava um barrigão próprio dos nove meses que completara. O rapaz, transtornado, mal conseguia balbuciar as repostas:


- Seu nome? - Trabalha? - O que você pretende?


                A moça não dava trégua no choro e eu precisava trabalhar. Então insisti:


- Querida, você precisa me ajudar, quero saber o que ocorreu? Você tem que me contar para eu saber o que fazer...


               Há muito custo, após uma sessão de vômitos, pensei: bombeiros! O neném vai nascer aqui mesmo. Mas não, foi alarme falso. O bom é que eu estava fria no procedimento, não fiquei nervosa. Gente, depois de algum tempo não tem jeito, a maturidade policial chega e você vai se superando diante com as situações... E ela me contou estar vivendo como o rapaz há nove meses,  - suponho desde a gravidez - ele a trouxe para viver em outra cidade, deixando para traz três outros filhos menores que residiam com a avó e, naquele momento, a discussão se iniciara por que a avó iria viajar e a mãe estava sendo chamada para cuidar dos outros filhos, fato que não agradou o companheiro, que avisou:


- Se você sair de casa, enfio uma faca na sua barriga!


E estava lá a situação. Agora eu entendia...  Voltei-me para o rapaz e perguntei:


- E ai? E ele disse:- A senhora tem filhos?





- Não é esse o caso, quem faz as perguntas aqui sou eu, cortei-o. Afinal quem estava trabalhando ali era eu, só me faltava ter que responder perguntas... Ele limitou-se a dizer:


- Para a casa da mãe ela não volta, com filho meu não...


                Assim mesmo. Determinado, ele em poucas palavras confirmou sua ameaça, agora de maneira indireta. Eu pensava, momento em que minha avaliação sobre o tal casal foi interrompida por uma gritaria louca que vinha de passageiros de um coletivo em frente à DP.




Explico. Em frente à delegacia há uma parada de ônibus, daí a proximidade. E um sujeito maluco achou justamente ali um ponto para efetuar um roubo a coletivo, pode?! Pelo menos foi isso que umas cinco pessoas desesperadas, chamando por ajuda, davam a entender.


                E eu?  Tinha na minha frente um cara que pretendia antecipar a chegada do filho de uma forma não convencional e um roubo a coletivo em andamento. Quantos agentes éramos naquele momento para sairmos em segurança e em vantagem sobre o bandido e deixar alguém para cuidar das instalações da DP – onde pela natureza do serviço e pelo equipamento que dispomos, as instalações requerem o máximo de segurança?  Lembra-se? Éramos três, dois estavam na Asa Norte e eu sozinha com o rádio! Isso mesmo! Chamei a CIADE – para quem não sabe, trata-se de nossa central de atendimento e comunicação com as demais unidades da PCDF. Aquilo que é falado no rádio é copiado pela rede, que está sintonizada na faixa e no meu caso, faixa três. Meus próprios colegas, se não estivessem dentro da viatura naquele momento, não saberiam o que se passava... Estavam longe. Eu precisava de outro apoio.





                De imediato chamei prioridade pelo rádio. Quando ouvimos prioridade, quem está falando dá a preferência e permite que a prioridade se antecipe, os demais passam a prestar a atenção.


- CIADE DP chamando, prioridade... Situação de roubo a coletivo em andamento, uma agente de polícia com outra situação de ameaça e partes na DP, vou atender ao local, peço apoio.


                Deixei o rádio, de arma em punho, mandei que o autor não se levantasse – detalhe: minha algema tinha ido para a Asa Norte, mas com voz firme, mandei que não se levantasse e saí para saber o que de fato ocorria...


                Observei que alguns corriam em perseguição ao suposto assaltante, momento em que me assombrou a lembrança dos equipamentos na delegacia – arrepiei. O que fazer? voltei... O rapaz permaneceu sentado, e a moça, assustada, havia parado de chorar. Menos mal.


                Para minha surpresa, as poucas respostas que surgiram no rádio foram para informar que não haveria apoio ou deslocamento.


                Confusões em delegacia não me surpreendem. Lá é local natural de problemas e eu sei disso. O que me surpreendeu foi a falência do cuidado e da prontidão que deveríamos ter uns com os outros enquanto policiais; e eu afirmo que a falta de resposta não foi pessoal, quem copiava não sabia o rosto de quem solicitava ajuda, sabia apenas que era uma policial em situação de desvantagem e que estava nas proximidades. Onde trabalhei deixei amigos e as mudanças de delegacia, poucas por sinal, aconteceram como movimentação natural do trabalho.


                Eu prezo pelo anonimato. Ele me confere liberdade para escrever e expor minhas impressões sem maquiagem. Por isso, gente, não foi nada pessoal, foi mesmo institucional.


                O desfecho? Só eu estava e só as coisas se resolveram... Por enquanto.






16 comentários:

  1. Muito absurdo acontecer esse tipo de situação. Acredito que isso deva ser documentado e encaminhado ao Sinpol (se vai ser feita alguma coisa ou não, aí é outra história). Não podemos mais ficar quebrando galho, estamos colocando nossas vidas em risco pra que? Falta efetivo? E os quase 500 canas cedidos pra outros órgãos? Pode ficar funcionando desse jeito não...

    Parabéns pelo relato!

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  2. E ai Vitão!

    A situação é difícil mesmo e preocupante... um abraço, Paty.

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  3. Gente! o que me preocupa é o que motiva o silêncio; se é a falta de incentivo financeiro, leis frouxas que não compensam trabalhar com afinco pois a bandidagem tem sempre um precedente que o benefícia ou a polícia é um terreno de concurseiros, um trampolim para outros órgãos...

    Que pena!

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  4. OI PATY!!

    QUE SITUAÇÃO COMPLICADA A SUA! AONDE ESTAVAM OS ESCRIVÃES PARA LHE AJUDAR?? ESSE DEFICIT DE AGENTES É IMPRESSIONANTE! E EU ACHAVA QUE ISSO NÃO OCORRIA NA PCDF!!

    PUBLIQUEI NO MEU BLOG E NOS SITES ESPECIALIZADOS A MINHA TEORIA INÉDITA. DÁ UMA OLHADA ESPERO QUE GOSTE. SE PUDER DIVULGAR FICAREI FELIZ! ABRAÇOS

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  5. Culpa nossa essas situação. Façamos o que se pode, o que estiver escrito, respeito ao regimento interno. Logo alguém acorda ou alguém se machuca!

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  6. Aonde estava o delegado nessa hora??

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  7. Lindoberto Ribeiro23 de outubro de 2011 05:34

    Olá, Paty,
    Muito interessante o que vc colocou. No entanto essas situações são bastante comuns nas DP do DF, por culpa nossa e do SINPOL, que só convoca "assembléias" para falar sobre aumentos salariais e esquecem dos que trabalham nas circunscricionais, plantão e expediente. A falta de pessoal e falta de companheirismo de alguns colegas colega em risco diariamente a vida de policiais que tentam cumprir aquilo que lhes é impostos pela administração. É comum colegas pedirem prioridade e não serem atendidos, pois, dependendo do horário as viaturas estão se deslocando para as residências de certos policiais e estes fingem não ouvirem tais pedidos de ajuda por entenderem que seus “compromissos” são mais importantes.
    Abraços,
    Ribeiro P6

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  8. Olá Ribeiro, foi bombástico o comentário mesmo. Gostei. Estou contigo, concordo que está faltando companheirimo e responsabilidade para alguns agentes, o qua acaba deixando os outros em situações perigosas como esta pela qual a Paty passou.

    Até breve

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  9. Bruna vamos esperar a Paty chegar de viagem de férias para nos contar. Também fiquei curiosa com a sua pergunta.
    Abraço Lili

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  10. Anônimo eu não estou mais no plantão, mas já estive por 4 anos, por isso sei do valor dessa função, acho que é uma das mais, senão a mais importante da Delegacia. É puxado, cansativo e por outro lado empolgante e desafiador. Muitas confusões são resolvidas ali memso. Precisamos buscar mais apoio, seja junto ao sindicato, ou junto as próprias chefias para melhorarmos as condições de trabalho sempre.

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  11. Dr. Lazaro eu li a sua teoria, bacana. Quando a localização do escrivão na hora do aperto da colega Paty, ela vai ter que nos contar assim que chegar, está uns dias fora. Grande abraço é muito bom tê-lo aqui no Blog da Polícia com a gente, discutindo os pontos.

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  12. Oi gente, estou de volta, sai de férias e realmente me desliguei da rotina e ela também inclui o trabalho...

    Paty

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  13. Olá Dr. Lázaro!

    A equipe na qual trabalho está composta somente por três agentes. Não há escrivão, nem delegado de plantão. Daí a necessidade do apoio que não veio.

    Realmente há necessidade de mais profissionais para comporem os quadros nas dps, já que passamos 24h com apenas três policiais a fim de atendermos a população de uma cidade...

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  14. Amigo Anônimo

    Seguir o regimento interno é uma opção, você tem sua razão, mas conforme constatei há alguns meses, salvo engano, o regimento foi extinto... de qualquer maneira, segui-lo era trabalhar em uma situação utópica, já que ele prevê procedimentos ideais o que não é nossa realidade. Diante disso o que fazer? não trabalhar e deixar a situação parada? a sociedade precisa de uma resposta, da nossa atuação e é ai que agimos dentro das nossas limitações e como vocês constataram, criamos vínculos... um abraço, Paty.

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  15. Pessoal,

    Há um conceito errado na polícia de que quem trabalha em plantão não faz nada, não é bem assim; o pessoal do plantão, faça chuva ou sol, dia ou noite, tem que estar na dp, não pode desfrutar um feriado, ponto facultativo entre outras "regalias" que são discretamente permitidas na rotina do expediente...o próprio plantão trabalha horas a mais que o expediente a cada semana e o Sinpol, até o momento, nem sequer menciona tal disparate, como se fosse o representante apenas do policial de expediente. Não quero aqui mensurar se o plantão ou expediente é mais ou menos importante, ambos são igualmente necessários. O problema é que as limitações do plantão são imediatamente sentidas, enquanto que no expediente há tempo e deslocamento de pessoal para corrigi-las... o policial do plantão está desmotivado, cansado e no limite, não havendo para ele nenhuma compensação financeira pelas horas trabalhadas durante a madrugada. Não sei o que anda fazendo o Simpol; talvez pensando no próximo candidato; por isso tais casos não são levados a conhecimento da entidade...

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