domingo, 22 de janeiro de 2012

Agora sim... O Desabafo, por Paty

 Uma revista de veiculação nacional, da qual também sou assinante, abordou o assunto enfatizando o problema que o governador da Capital Federal teria que lidar: além do alto índice de criminalidade e corrupção, iria enfrentar os policiais mais bem pagos do país em greve, cujo período já se tornara o mais longo de todos os movimentos desencadeados pela categoria.

Não perdi tempo. Rapidamente escrevi um desabafo à revista, que lamentavelmente preferiu divulgar na seção Cartas do Leitor um elogio feito às figurinhas que ilustraram outra reportagem, afinal, como já dito: defender polícia não é simpático e encarar a face do real não é lá muito bonito.


Mas divulgo entre nós o que escrevi:
Sobre a reportagem PIOR QUE A ENCOMENDA pág. 103 da revista Veja - edição n. 2245 - que trata da Greve da Polícia Civil. 
O fato de um policial civil em Brasília receber quase o dobro dos valores pagos aos policiais civis de São Paulo, não transforma o salário em ótimo ou ideal. Ao contrário, demonstra que os demais Estados estão colocando seus policiais civis, militares e bombeiros em situação de miséria. 
Alguns são muito bem remunerados em Brasília -  é verdade - porém, a revista esqueceu de ressaltar que salários confortáveis são encontrados no Judiciário, Ministério Público, Câmara dos Deputados e no Senado Federal, onde os servidores trabalham de terno, salto alto, no ar-condicionado e têm o apoio da polícia militar para desempenharem suas funções, que incluem a segurança de alguns bandidos disfarçados de representantes eleitos, podendo para tanto, sim, receber mais de R$14.000 ao mês, além de auxílios creche e alimentação, bem como gratificações que podem atingir os R$6.000,00.

Já a realidade dos agentes da PCDF é bem diferente. Com salários que variam entre R$5.500 e R$8.500, trabalham em viaturas sucateadas, instalações precárias, sistemas inoperantes, falta de pessoal - devido à insistência política por inaugurações de delegacias sem efetivo correspondente e, ainda assim, apresentam o maior índice de solução da criminalidade do país.

O aumento da insegurança não se deve à inércia da polícia e sim pela exclusão promovida pela vigente política social, que empobrece e cria a brutalidade.




Aos que ainda acham que a polícia civil do DF é bem paga, lanço o desafio de viverem com o salário de um agente na primeira cidade mais cara da América Latina e terceira cidade mais cara do mundo, que é Brasília. Vale lembrar que a greve é a única maneira de pleitear uma reposição salarial e esse é um recurso legigítimo e transparente.
O STF considerou legal a marcha em defesa do uso da maconha, mas julgou ilegal a greve de policiais na busca por melhores salários; diante dessa decisão, não tenho mais parâmetros do que seja Justiça. Não há em nossos contracheques caixa dois, negociatas, convênios, ONGs e outros meios que possam virar uma "boquinha".

Por Paty.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ainda vou te prender! por Lili




Evito escrever sobre fatos recentes, mas no apagar das luzes de 2011, num voo que me leva a mais um final de ano juntos aos meus, veio à tona relances da operação que nossa seção realizou ontem e escrevo das alturas mesmo.
Pensando bem, minha mãe tem razão ao acreditar que no dia-a-dia de um policial não há rotina. Melhor mesmo é encarar assim do que insistir nos clichês: “É perigoso de mais”; “A polícia prende e a justiça solta”; “Não há interesse dos governantes em investir em presídios”. Melhor parar por aqui, porque essa lista é mais longa do que os livros não lidos da minha estante.
23 de dezembro, não teve jeito, mesmo já sonhando com o recesso de Natal, o chefe da seção marcou uma operação para a madrugada, numa das cidades que compõem o famigerado entorno do Distrito Federal, onde predomina uma violência não conhecida por nós, os 1,6 milhão de habitantes do quadradinho.
Ocorreu que o autor de vários homicídios em nossa área estava foragido naquela localidade e era para lá mesmo que seguíamos e, quem sabe, fechar o ano bem...
Duas viaturas, cinco agentes e um delegado. No caminho, eu e o colega que guiava, observamos o grande fluxo de carros e ônibus lotados rumo a Brasília.
- Deve ser bem puxado acordar na madrugada ainda escura, tomar o ônibus, enfrentar estrada ruim para chegar ao labor de cada dia”, comentei. 
- Os governantes deveriam investir em infraestrutura para agilizar o transporte do povo. Eles têm a missão de investir bem o dinheiro público, atentou meu colega policial.
- Dinheiro que é meu e seu – mas, os políticos não conseguem conciliar uma miríade de carências e acabam defendendo seus próprios interesses. Afirmei também: - Empregos não faltam no Brasil, a taxa de desemprego - em média 6% - sendo que esse quantum, na verdade, refere-se àqueles que estão trocando de posição e não aos desempregados de fato.

- É Lili, quem sabe se as condições fossem melhores não precisaríamos passar a véspera de Natal na captura de criminosos foragidos da justiça.
Uma hora e meia de viagem, encontramos o local, terreno grande com duas residências. Cercamos o terreno, fizemos as entradas de praxe. Cachorros, muitos, latindo em frenesi em nossa direção (Ufa!). Nenhum nos atacou.

A casa na qual eu e o chefe fizemos a entrada era a maior, checamos cômodo por cômodo, sendo que no mesmo instante em que verifiquei que um quarto estava com a porta trancada, ouvi o colega da equipe da casa dos fundos dizer: “- Alvo atingido”, o que significa que o procurado já estava preso. Virei-me, sentido indo para a direção deles.
“- Ainda falta checarmos um cômodo”, ouvi do chefe da seção (era justamente o que estava fechado) virei-me imediatamente: - Tem razão, não devemos dar as costas ao inimigo. Verificamos o último cômodo e seguimos.
Fiquei satisfeita em prendermos este meliante. Na volta comentei que acabamos com o Natal daquela família naquele ano, mas o preso acabou com o Natal de várias vítimas de assassinato para sempre.

O bom mesmo é prender em flagrante, além do mais, passados três meses, não se ouve mais o alarido de indignação da população, da família e da imprensa. Mesmo assim, meu colega contou-me que o desfecho desta operação foi mais saboroso para ele - uma bizarra coincidência: certa vez, na Delegacia, entrevistara o homem que acabáramos de prender, ainda não havia mandado de prisão ou provas que justificassem uma prisão imediata e, quando questionado sobre o sua vida pregressa - pasmem - respondeu vangloriando-se, de peito cheio: "Tenho triplo homicídio, duplo homicídio e homicídios simples. Isso só  o que a polícia identificou." (palavras dele).
Ao que meu colega respondeu, olhando em seus olhos:
 - Ainda vou te prender.