quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUERO O CACHORRO DE VOLTA, por Paty

                Não suporto covardia, fico abalada e entristecida. Penso que as pessoas, em sua superação para o que não presta, voltaram sua atenção para os animais, que estão sendo continuamente reféns de maus-tratos.
                Lamento profundamente. É de se lembrar do caso de três cachorros, cujo dono faleceu e seu filho passou a cuidar, ou melhor dizendo, a abandonar oficialmente os mesmos ao relento - na chuva, ao sol, com água imunda, comida podre -  e depois de um tempo, com a morte de um deles, mantendo os outros dois com a carcaça.
                Como se não fosse o suficiente, cachorros são arremessados contra paredes, arrastados por motocicletas e carros, enterrados vivos, mutilados, lançados de apartamentos, esfaqueados e enforcados. Os animais silvestres contrabandeados são colocados em caixas, canos, tubos onde mal podem respirar, se mover e  se alimentarem e têm até seus membros quebrados para se adequarem ao recipiente.
                Faz parte do meu trabalho lidar com essas coisas terríveis. E eu trabalho mesmo. O que não ajuda é a lei de repressão a essas condutas perversas, que é branda demais.
                Era um dia em Janeiro e como chovia, naturalmente houve uma queda de energia na região. O portão elétrico de uma das casas abriu-se e, sem noção, fugiu da casa um cachorrinho da raça York Shire - daquele mesmo que a enfermeira jogou e jogou contra a parede na cidade de Formosa.

                Um rapaz em uma caminhonete perseguiu o pequeno e tomando-o, ia saindo, quando foi advertido pelo síndico:
- Esse cachorro tem dono, pertence ao rapaz ali da casa, cujo portão abriu devido à pane pela falta de energia...
- É. Esta aqui meu telefone. Depois eu entrego para ele...
                Percebendo que aquela atitude não condizia com o interesse de entregar nada para ninguém, o síndico prontamente anotou a placa do carro.
                Não demorou muito e o responsável pelo cachorro saíra a sua procura, quando foi informado a respeito do que ocorrera.
                Chegou à delegacia e relatou o caso, que descreveu como besteira, mas sem negar:
- Quero o cachorro de volta! Direito seu, pensei. O atendimento não era meu então passei a acompanhar, ouvindo.
                Meu colega prontamente levantou dados sobre o carro. Bingo! O fulano de tal residia distante e no intuito de ajudar, pesquisei ocorrências com o nome da criatura... Sem surpreender, o sujeito já era freguês, incidente em alguns artigos que condiziam com sua atitude dissimulada, ao saber que o cão tinha dono.

                Mas isso não foi nada. Ao ser contatado pelo telefonema do meu colega, o sujeito investiu-se de uma razão, que somente pode ser invocada no direito brasileiro. Argumentou que o rapaz reclamante não podia comprovar que era dono do cachorro e que o mesmo estava abandonado – dentro de um condomínio -  e que ele somente devolveria na manhã seguinte.
                O responsável pelo cachorro ficou perdido e eu fiquei indignada:
- Diga para esse sujeito que ele está com algo que não lhe pertence, que você está falando da delegacia e é para ele entregar o cachorro agora – Balbuciei para o meu colega que estava na ligação...
                O sujeito, percebendo a descrença na voz de meu colega, não hesitou:
- Não vou, só amanha.
                O rapaz ficou com o olhar meio que perdido. Aqui não é a polícia? Como é que o sujeito diz não e nada acontece... Uma interrogação saia de seu olhar. Eu, porém, fiquei aliviada quando a ligação caiu – ou o cara desligou - e meu colega passou-me a situação, pois ele precisava  se ausentar.
                Tomei o telefone para novo contato, quando o sujeito ligou. Atendi e continuei o assunto. Ele perguntou pelo meu colega e eu o informei que o caso seria tratado comigo e comecei:
- Senhor, traga o cachorro agora, estamos esperando por ele na delegacia...
- Amanhã devolvo, estou na Asa Norte (uma cidade da região).
- Negativo. Ou traz aqui ou a gente vai buscar.
- O cachorro tava na rua, não é de ninguém. De onde ele tira razão? Pensei...

- Olha moço, você já foi informado de que o cachorro saiu devido uma pane no portão. O síndico do condomínio advertiu de que o cachorro pertencia ao vizinho e ainda assim você entendeu que deveria levá-lo. Estou falando da polícia, ou seja, não estou brincando. Você está com a posse de um bichinho que não lhe pertence e o dono está aqui, reclamando por ele, o que mais o Senhor precisa saber?  Qual é sua intenção em relutar na entrega desse animal, que não lhe pertence?
                Eu tentava levar o homem na conversa, mesmo com autoridade. Eu exigia dele, mas no fundo, eu precisava que ele entregasse o cachorro, pois estava sozinha na DP e naquele momento, não poderia ir buscá-lo, embora eu tivesse toda a disposição de ir posteriormente. Pensava também em evitar um mal maior contra o animal como forma de retaliação.
                E assim foi: Não levo. Traz! Não vou. Vem! Caso não vier eu vou buscar, enfim: o sujeito abriu que se encontrava próximo; disse que estava sendo coagido – por entregar algo que não lhe pertencia e ameaçado – pois íamos a casa dele, ou deveria apresentar-se na DP – Direito brasileiro dá essas possibilidades...
                Depois de muita fala, ele se dispôs a entregar o cachorro no condomínio do rapaz, com quem combinei se ele não entregasse, uma ocorrência de Furto caprichada seria registrada.
                E ele cumpriu. Depois de alguns minutos conheci o pequenino: um fofo, que me deu uma lambida na boca, eca! Gracioso como todo bichinho em sua função de nos dar carinho...
                O rapaz sorridente agradeceu-me. E fazendo menção a um cartaz na delegacia afirmou:
- Você cumpriu a sua missão. A noite mal começara, mas para mim, teve um final feliz.

Paty.

22 comentários:

  1. Amiga que bom que este final foi feliz e você cumpriu seu papel! Confesso que fiquei chocada com as colocações iniciais sobre os maus tratos aos animais...Entendo que é importante denunciarmos e expor essas situações, para quem sabe diminuir o sofrimento deles.

    Um beijo e Feliz retorno ao Blog da Policial

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  2. Oi Lili! que saudade de escrever...mas vou devagar, você sabe bem porque, kkkkkk...

    Olá pessoas! estamos com saudades, espero que todos estejam bem, bjs!

    Paty

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  3. Parabéns pela atitude nobre! Ainda bem que ele devolveu o bichinho, porque do jeito que as coisas vão, os canas não estão podendo sair nem pra atender homicídio, quiçá uma ocorrência com furto de animal. Pena q pc estar dessa forma, indo para um caminho sem volta, que é o mesmo buraco que as outras pc's os estados estão, por completo abandono das autoridades.

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  4. Oi, Paty! Pena que eu não estava aí com vc para ajudar a enquadrar esse folgado!!!! Saudades! Ju

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  5. Vitão!
    Concordo com você... em algumas situações há uma inversão... mas a autoridade que nós é tirada reflete sobre a sociedade, que acaba por sofrer as consequências de uma polícia que fica engessada por um sitema de controle sem motivo real...

    Cada um de nós é responsável por fazer algo legal e bom, quando temos a oportunidade. Não devemos e não podemos nos omitir, que acha? um abraço!
    Paty.

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  6. Querida Ju! muito bom ter você por aqui...

    Minha parceira sem igual: gente essa "novinha" abraçou a causa, entende do serviço, aprende e se supera, uma excelente policial...

    É verdade amiga, eu tenho certeza que se estivessemos juntas o coro ia ser maior: devolve o cachorro cara de pau! kkkkkk
    beijo, saudades de você sempre. Nos vemos na Sexta!

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  7. Ainda bem que existem policiais compromissadas com o serviço! Infelizmente o governo não nos dá a minima condição de trabalho, alem da ingerência dos que mandam nas corporações. Mas é assim mesmo, um dia melhora!

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  8. PAPA MIKE DELTA FOX

    Colega, bom que você participa, nos acompanhe em nossas histórias... Você sabe bem o que é a vivência policial e como é difícil ser profissional entre tantos problemas e poucos estímulos...
    Sucesso!

    Paty.

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  9. Não são apenas as palavras ou o caso em si, mas principalmente esse tipo de postura e senso do que é certo que me reacendem a cada dia o desejo de me tornar policial. Parabéns.

    Virei freguês do blog...rs

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  10. OI Futuro APF!

    Colega você mencionou dois pontos interessantes: o tipo de postura e o senso do que é certo... Como pretende ser um Agente Federal já pode ir assimilando... A postura que temos ao fazer nossas escolhas faz a diferença na hora de dormir em paz...
    Sucesso, torcemos por você!
    Paty

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  11. Paty e Lili
    Adoro ler suas histórias ... tenho verdadeira admiração e carinho por esse blog ... portanto, peço que escrevam mais e mais !!!!! fico aguardando cada texto novo... e meus olhos chegam a brilhar, ao ver que tem novidades por aqui ... Muito bom ADOREI !!! Beijos ...

    Raquel

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  12. Olá Raquel!

    Ficamos contentes com seu entusiasmo... vou remexer no baú da memória para trazer novas e inusitadas histórias ok? beijão, Paty.

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  13. Ola donas do blog

    O que eu acho interessante é o individuo não sentir preocupação perante a ordem DA PROPRIA POLÍCIA!!! Será sensação de impunidade ou está achando que a Polícia não vai fazer nada??

    Pelo menos ele teve consciencia e entregou o caozinho para nao ter que ficar novamente enjaulado. Será que o respeito pela Policia acabou?? Abraçoss

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  14. Doutor Lázaro

    essa impressão que você teve é real: os infratores, por perceberem a legislação branda, não se intimidam com a ação policial, pois tem sim a sensação de impunidade... esse rapaz do caso tinha uma ficha extensa como estelionatário, ou seja conhece as fragilidades do sistema.
    Fazer o que, temos que continuar trabalhando, kkkkkk.

    Um abraço, Paty

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  15. O que eu percebo é que tu leva até no bom humor essa situação. Tu gosta mesmo da area policial e sem dúvidas nossa lei é patética.

    Tenho um novo artigo inovador. Nossa lei não estimula o bandido a se entregar para a polícia. Pensei em autodenominar tal instituto em "rendição premiada". O criminoso que antes do cumprimento do mandado de prisão se entregar sofrerá um bom abatimento da pena. Isso daria tempo para os agentes se preocuparem com outros casos alem de reduzir gastos para o Governo. QUAL SERIA A SUA REAÇÃO DE VER O CRIMINOSO IR A DELEGACIA QUERER SE ENTREGAR? Quando estiver pronto te aviso forte abraço

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  16. Oi Doutor Lázaro

    Você não tem idéia da quantia de pessoas com fichas criminais extensas que estão nas ruas: de estupros, roubos a homicídios, tem de tudo;

    Percebo que o sistema carcerário não comporta a demanda de criminosos, então uma forma de corrigir isso é aprovar leis que visem o mínimo de encarceramento.

    Não sou a favor do encarceramento simplesmente, mas da ressocialização, quando possível. Essa dicussão é ampla e interessante...

    No mais, o jeito e sorrir, para não chorar!

    Paty

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  17. Direito penal mínimo? interessante, mesmo assim é necessário uma ampliação no sistema carcerário brasileiro. Tudo bem que nosso país tem um grande índice de miséria e que deve ser erradicado, mas enquanto isso não ocorre o encarceramento é fundamental para uma melhor qualidade de vida dos cidadãos de bem. Senão ficamos a mercê dos bandidões.

    Com a rendição premiada já daria um crédito ao criminoso se ressocializar, pois já estaria assumindo o erro e facilitando o trabalho da polícia, inclusive daria a ele o direito de aguardar o julgamento em liberdade (depois de fornecer o endereço, telefone, nome de vizinhos etc)

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  18. Olá, meninas! sou da produção do programa Papo de Mãe (Tv Brasil)e estamos preparando um programa com o tema "mães profissão de risco". Por acaso alguma de vcs é mãe? Se não forem não tem problema, gostaria apenas da autorização de vcs para citar o blog de 2 policiais femininas que compartilham suas experiências na internet. Por favor, entrem em contato comigo: clarissa@papodemae.com.br. Obrigada!!!

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  19. Oi Meninas do PAPO DE MÃE

    Legal vocês nos descobrirem! realmente não somos mães, mas temos colegas policiais e mães que se desdobram para cuidar dos filhotes e atenderem ao trabalho; quem é polícia sabe: a hora para trabalhar a gente só sabe a que é definida para começar...

    Caso seja interessante, fiquem a vontade para citarem nosso blog no programa, abraços!

    Paty e Lilian

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  20. FALAR QUE TEM DISPOSIÇÃO DE IR BUSCAR SOZINHA É MOLE...SÓ QUE A GENTE NUNCA VE ISSO DE FATO;O MAL DE ALGUNS POLICIAIS É ESSE,QUERER POSAR DE BRABO,AINDA MAIS SENDO MULHER...POLICIAL INTELIGENTE RESOLVE NO DIÁLOGO;E USO DA FORÇA,SE NÃO FOR COM POLICIAIS HOMENS,NÃO EXISTE...TANTO QUE MULHER NÃO TRABALHA SOZINHA NA POLÍCIA!MENOS,QUERIDA...BEM MENOS......

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  21. Anônimo, você tem razão, mulher não trabalha sozinha na polícia... nem mulher nem homem por questão de segurança. Mas a vontade é livre e não depende de segurança não é mesmo? De qualquer maneira, respeito sua opinião e por isso te digo: não precisa ficar anônimo para expor o que pensa ok?

    Tudo de bom! Paty

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  22. Maldito anônimo, você não viu que a vontade de ir sozinha é força de expressão. Nem policiais masculinos nem femininas trabalham sozinhos, policiais sozinhos não são nada e você pode ter certeza que sei disso mais do que você, anônimo ridiculo.

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