quarta-feira, 2 de maio de 2012

FAXINA, por Paty

FAXINA, por Paty


Entrei na polícia por querer mudar... Sou adaptável. Não vou mentir: não nasci sonhando em ser policial, sonhava (e sonho) mesmo em melhorar de vida, então não hesitei em fazer o concurso, mesmo com os mitos que rondam a profissão.
Hoje percebo que é real a necessidade de interiorizar o perigo e reconhecer que a morte pode nos fazer companhia quando a gente menos espera.
É o trabalho policial, é o ônus de prestar segurança para os outros.

As situações vão surgindo e, de inesperadas, passam a corriqueiras e você aprende a não se chocar mais. Mas houve um caso específico que muito me chamou a atenção...
Não ocorreu em situação criminosa, mas veio de um delegado chefe, com quem trabalhei.
Eu completara treze anos de serviço, desses, doze exclusivamente no plantão e, aproveitando o anonimato, vou confessar: gostei do plantão e sei trabalhar nesse ritmo, com suas inusitadas situações que requerem decisão de imediato; além do que não fico olhando para o problema, tento resolvê-lo, por isso, modéstia a parte: considero-me versátil...
Há pouco tempo o surgiu uma chefia remunerada para o plantão. Meu colega mais antigo de polícia, mas não de plantão, por iniciativa própria,  declinou do posto para mim, função essa  que eu, há alguns meses, lhe havia cedido... Porém,  o fato foi maldosamente ignorado pelo delegado chefe, que teve uma escolha duvidosa.

Resignei-me. Afinal sempre trabalhara no plantão, até recentemente fazia todo o trabalho próprio da chefia e quando surgiu a oportunidade de ser beneficiada - já que nunca houve qualquer compensação para as responsabilidades - , fui preterida por um colega que tinha dois anos no plantão, estava retornando à DP recentemente, de onde havia sido permutado por não se enquadrar nas expectativas da antiga chefia.
Faz parte. Senti-me humilhada, triste e sem estímulo. Continuei trabalhando e sendo requisitada da mesma forma, mas a minha insatisfação transpareceu e com ela os limites foram impostos.
O delegado, responsável pela escolha, sabe-se lá o motivo - talvez pelo constrangimento de uma decisão tão sem critério -  passou a ignorar-me, acredito para esquivar-se uma possível justificativa.
Não me dirigia à palavra, não me olhava.. O serviço e os dias fluíam... Nada estranho, já havia trabalhado com pessoas diferentes, passionais, emotivas, mal educadas, estranhas entre outras, mas o que viria a seguir iria se tornar a novidade.
Ele aproximou-se e, como de praxe, olhou para meus dois colegas e os cumprimentou, para mim, deixou o silêncio.  Então fitando a mesa do plantão, a considerou bagunçada:
- Oh! Pessoal, arruma essa mesa! E falando sobre mim para os outros dois policiais, soltou a pérola:
- Chama a colega ai e pede para ela dar uma “faxina” na mesa, ela tem mais jeito com isso... Ao tempo que ele saía sem constrangimento, eu demorava a acreditar no que havia ouvido.
Então vi um sorriso maroto, sem maldade no rosto de meu companheiro e tive certeza do que havia ocorrido...
Para limpar as coisas eu sirvo, para ter meu trabalho reconhecido e para receber uma gratificação não!
Foi inevitável, passei a comparar-me com os demais policiais. O que me falta? Concluí: sou mulher... Para alguns em seu mundinho, estou fora de seus critérios.



                     Paty.

11 comentários:

  1. Olá Paty...

    Felizmente, com nossos ideais, convicções e posturas, somos e podemos ser muito mais do que alguns olhos medíocres podem ver.

    ;-)

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  2. Oi Futuro APF

    Colega, você definiu de maneira sábia a situação, gostei muito! me fez pensar...sua colocação foi ótima! que bom que você compartilhou conosco...

    Paty

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    1. Fico feliz por poder contribuir um pouco..rs

      Depois se quiser visitar meu blog será muioto bem vida...

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  3. Lindoberto Ribeiro6 de maio de 2012 15:17

    Olá Paty
    Mais uma vez parabéns pro sua belíssima crônica.
    Infelizmente hoje na PCDF, acredito que nas outras seja igual, não existe meritocracia e sim o QI e "amizades de buteco".
    Se você contribui é sua obrigação se faz o "feijão com arroz" é preguiçoso.

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    1. Oi Lindoberto Ribeiro

      Valeu pelo elogio! essa política desvaloriza e desanima quem trabalha, fazer o que? só me resta estudar e escrever crônicas kkkkk, abraços, Paty

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  4. Boa Ribeiro!!! Mas quero dar uma dica para o Futuro APF: Estou lendo o livro COT charlie.oscar.tango, escrito por dois APFs, creio que vai te dar mais gás ainda para a preparação. Um abraço e seja sempre bem vindo aqui.

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    1. Obrigado pelo apoio, Lili.... realmente esse livro é show, principalmente para quem ainda não está na polícia... a gente quase se sente no meio da operação..rs

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  5. Futuro APF

    Divulga ai pra gente o seu blog! abraço, Paty

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    1. Oi Paty.... http://compromissofederal.blogspot.com.br/

      Taí meu blog... obrigado pela divulgação...

      :)

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  6. Ah nobre companheira, se fosse só aí a gente ainda dava um jeito...mas todo órgão publico no Brasil funciona assim. Na co-irmã é o que mais acontece, se o cara é peixe de alguém estrelado, ele sempre se dá bem, pega as melhores escalas,os melhores locais! Agora quem não é, sempre se lasca. Mas o importante é não desanimar e sempre seguir buscando nossos objetivos. Quanto mais lutando contra o preconceito, aí tem que lutar em dobro!!!

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    1. Olá colega PAPA MIKE DELTA FOX

      Tenho amigos queridos que são da corporação e que confirmam o que você mencionou, uma pena! não desistir é uma necessidade, pois estamos na ativa e gostamos de trabalhar bem... agora de fato, mostrar que preconceito não tem lugar é um desafio que as vezes cansa.
      Um abraço! sucesso...
      Paty

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