sexta-feira, 13 de julho de 2012

NÃO É ASSUNTO DE POLÍCIA, por Paty

O público de um modo geral não tem noção de qual é o papel da polícia e isso gera certo desconforto, porque a ansiedade por uma solução se frustra quando a resposta é “não é possível” ou “não é aqui”.
Naquele plantão deparei-me com uma dessas situações. Uma mulher jovem, bem vestida, assessorada por unhas artificialmente bonitas e indiscretamente vermelhas, mal se continha para ser atendida.
Eu percebi, solicitei que se sentasse e passei a ouvir sua queixa, a qual já foi acompanhada de lágrimas e tremedeira. Ela estava separando-se do marido, com quem tinha duas filhas menores. Por opção pessoal, parou de trabalhar – pois aguardava ser chamada para um tribunal da vida – E agora, em plena crise conjugal, dependia do ex-marido para comprar até um picolé. Mas eu ainda iria descobrir que ela tinha uma carta na manga: o cartão de crédito.
As tensões aumentaram, considerando que a separação não foi consensual. E o ex-marido não iria facilitar o desejo unilateral da mulher, que se viu obrigada a registrar ocorrência para apurar Violência Doméstica que teria sofrido; a famosa Lei Maria da Penha a amparava, mas não a separava e ela consciente ou não, ignorava essa limitação.
E foi aí que ela queria que a polícia agisse. Antecipou esse relato aqui compartilhado e eu tentava que ela fosse objetiva. Não julguem: é difícil ouvir problemas durante 24h seguidas, então o quanto a pessoa for direta melhor, cansa menos a mente, a noite inteira estava à frente e polícia não é de ferro...
Ela rodeou, rodeou e disse que o ex-marido precisava pagar o cartão de crédito que estava em seu nome... Veio até a delegacia, para que a polícia convencesse o homem a pagar a conta.
Expliquei-lhe, quando ela permitia, que aquilo não era assunto de polícia e sim uma questão da definição de pensão - Uma decisão do juiz em razão da separação junto à Vara de Família.
-A senhora já tem advogado?
-Tenho, respondeu.
-A senhora, através dos serviços do seu advogado, já deu início à separação judicial? É através do processo que será estipulada valores para seu sustento e o de suas filhas... nesse primeiro momento, vocês provavelmente vão pedir alimentos provisionais, devido à urgência e depois...
-Mas vocês não fazem nada? Ele não quer pagar meu cartão de crédito!
-Senhora a polícia não atua em questões financeiras de casal; se a senhora for agredida, xingada, ameaçada entre outras coisas, isso sim eu posso resolver, ou tentar.
-Ah! Já sei! Ele me ligou e eu não atendi. Não atendi por medo de ele me ameaçar. Acho que ele ia me ameaçar...
-Ele a ameaçou?
-Não. Acho que ia fazer, por isso não atendi.
- Querida, nós atuamos com o fato, não com o acho... Não é melhor a senhora buscar o meio eficaz de resolver sua questão: formalize sua separação com o auxílio de seu advogado, peça alimentos com um valor provisório... A proteção da polícia não resolve essas coisas...
                Essa orientação foi repetida umas três vezes e eu por fim tive que perguntar se ela estava me ouvindo, por que não adiantava falar.
                Foi embora da delegacia sem chorar e sem tremer – Estava mais calma, mas não convencida: a polícia tinha que fazer sua separação, definir visitas, partilhar seus bens, estipular o valor dos alimentos e o mais importante no momento: cobrar o pagamento da fatura do cartão de crédito. E vai alguém dizer o contrário...
Por Paty.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

NEM O PROCON DÁ JEITO, por Pay

                   Pode observar: não há local mais democrático que uma delegacia. Calma! Antes que chovam de protestos vou explicar: é o único órgão público no qual há uma autoridade pública disponível para receber toda e qualquer pessoa. Embora em alguns casos, haja a necessidade de se aguardar a vez, todos recebem atendimento. Sem exceção e mesmo que seja um Não.

                Democrática: recebe de tudo e a todos, não cabendo ao policial julgar as pessoas em suas ações, mas elucidar os fatos e vinculá-los às consequências jurídicas. Para julgar, não faltam candidatos: os que são de direito – Magistrados -, os que são de fato - a população - , a imprensa e eu mesma com meu íntimo juízo de valor, afinal ninguém é de ferro.

                E foi por isso que me chamou a atenção à indignação da imprensa nacional pela passividade do povo norueguês, frente ao julgamento de Anders Behring Breivik, aquele loiro de olhar estranho que trucidou a vida de setenta e sete pessoas, motivado por suas convicções lunáticas.

                No Brasil é bem verdade, que os julgamentos se tornam eventos midiáticos, onde as pessoas, deixando seus afazeres à parte, conseguem permanecer horas ocupadas em enxovalhar os Criminosos Pops do momento e trazendo trabalho à polícia, já que a escolta nesses casos é um problema sério de segurança. Quem não se lembra dos Nardonis ou dos irmãos Cravinhos em parceria com Suzane Von Richtofen?  Não sou a favor dessas manifestações.  Estou mais confiante no sistema calado, discreto e eficiente da Noruega. Talvez seja por isso que a população desse país não se dê ao trabalho de fazer justiça no grito.

                Pessoas são incríveis mesmo e por isso, também diferentes. É difícil mas necessário respeitá-las como são... Por isso, a delegacia continua sendo um local de expectativas: com o que vou me confrontar hoje?

                Ela chegou humilde. Olhou o ambiente e com dificuldade nos fitou. Rapidamente, talvez pela timidez, fez uma leitura de suas opções. Estavam à sua frente três homens policiais e eu e minha colega, as mulheres no grupo, estávamos sentadas já no extremo, as mais distantes de sua pessoa.

                Conversávamos animados e sorriamos por algum motivo que não me recordo. Mas era algo bem divertido, porque mesmo sem recordar o porquê, mas só de lembrar-me da cena, fiquei com vontade de sorrir... Nossa amizade, isso me recordo bem, era ótima, era muito bom trabalhar naquele grupo, naquele lugar.

                Quando percebemos sua presença, interrompemos o assunto e para o terror daquela mulher, todos a olhamos interrogando o que desejava. Ela por sua vez, buscou entre nós alguém a quem pudesse confidenciar seu atendimento. Aproximou-se devagar e ao olhar para nós mulheres, acenou com a cabeça que desejava falar-nos.

                Aproximamo-nos e os rapazes, ao perceberem a necessidade de discrição, proporcionalmente afastaram-se.

                Ela então nos contou sua aflição:

 - Eu me juntei com um rapaz, há cerca de cinco anos...
 - Sei. Expressei minha atenção.
- E ele tem estado comigo esse tempo todo...
- Hum... Afirmei.
- Mas de um tempo para cá as coisas mudaram...

 Ela mal levantava os olhos, pensei: está apanhando do marido e está com vergonha.

 - Ele maltrata a senhora? Fui de forma leve para ajudá-la a falar.
- Não! Não é isso...
- Ele bebe, não trabalha? 

- Não, não...
- Tem envolvimento com algum crime, uso de drogas? Problemas com seus filhos?

 - Não temos filhos. Não nada disso...Ele é trabalhador, boa pessoa, por isso gosto muito dele.
E quando meu repertório foi acabando e a mulher não dizia o problema, ela se superou:
- Sabe o que é? Quando a gente se juntou ele prometeu que sempre ia FAZER AQUILO comigo e agora passa muito tempo e ele não faz e eu quero REGISTRAR UMA OCORRÊNCIA, pode?

                 Uma empatia por aquela mulher me envolveu – Mas não nego: uma vontade grande de rir também. Achei-a inocente em sua pretensão e olhei minha colega e ambas sorrimos com ternura e voltamos para ela:

- Olha não há crime em ele não querer fazer sexo com a senhora. Aqui a gente trabalha com crime. E isso não é crime...

- Mas ele prometeu! Insistia a mulher, que estava convicta que isso era caso de polícia.
- Explicamos que isso era algo natural da pessoa e não uma obrigação imposta pela lei, ao menos no Brasil, não.

                 Baixou a cabeça, mas não se rendeu e questionou:
- E o PROCON resolve?

 Eu e minha amiga, em coro lhe desapontamos:
- Nesse caso, nem o PROCON dá jeito!

Paty