quarta-feira, 4 de julho de 2012

NEM O PROCON DÁ JEITO, por Pay

                   Pode observar: não há local mais democrático que uma delegacia. Calma! Antes que chovam de protestos vou explicar: é o único órgão público no qual há uma autoridade pública disponível para receber toda e qualquer pessoa. Embora em alguns casos, haja a necessidade de se aguardar a vez, todos recebem atendimento. Sem exceção e mesmo que seja um Não.

                Democrática: recebe de tudo e a todos, não cabendo ao policial julgar as pessoas em suas ações, mas elucidar os fatos e vinculá-los às consequências jurídicas. Para julgar, não faltam candidatos: os que são de direito – Magistrados -, os que são de fato - a população - , a imprensa e eu mesma com meu íntimo juízo de valor, afinal ninguém é de ferro.

                E foi por isso que me chamou a atenção à indignação da imprensa nacional pela passividade do povo norueguês, frente ao julgamento de Anders Behring Breivik, aquele loiro de olhar estranho que trucidou a vida de setenta e sete pessoas, motivado por suas convicções lunáticas.

                No Brasil é bem verdade, que os julgamentos se tornam eventos midiáticos, onde as pessoas, deixando seus afazeres à parte, conseguem permanecer horas ocupadas em enxovalhar os Criminosos Pops do momento e trazendo trabalho à polícia, já que a escolta nesses casos é um problema sério de segurança. Quem não se lembra dos Nardonis ou dos irmãos Cravinhos em parceria com Suzane Von Richtofen?  Não sou a favor dessas manifestações.  Estou mais confiante no sistema calado, discreto e eficiente da Noruega. Talvez seja por isso que a população desse país não se dê ao trabalho de fazer justiça no grito.

                Pessoas são incríveis mesmo e por isso, também diferentes. É difícil mas necessário respeitá-las como são... Por isso, a delegacia continua sendo um local de expectativas: com o que vou me confrontar hoje?

                Ela chegou humilde. Olhou o ambiente e com dificuldade nos fitou. Rapidamente, talvez pela timidez, fez uma leitura de suas opções. Estavam à sua frente três homens policiais e eu e minha colega, as mulheres no grupo, estávamos sentadas já no extremo, as mais distantes de sua pessoa.

                Conversávamos animados e sorriamos por algum motivo que não me recordo. Mas era algo bem divertido, porque mesmo sem recordar o porquê, mas só de lembrar-me da cena, fiquei com vontade de sorrir... Nossa amizade, isso me recordo bem, era ótima, era muito bom trabalhar naquele grupo, naquele lugar.

                Quando percebemos sua presença, interrompemos o assunto e para o terror daquela mulher, todos a olhamos interrogando o que desejava. Ela por sua vez, buscou entre nós alguém a quem pudesse confidenciar seu atendimento. Aproximou-se devagar e ao olhar para nós mulheres, acenou com a cabeça que desejava falar-nos.

                Aproximamo-nos e os rapazes, ao perceberem a necessidade de discrição, proporcionalmente afastaram-se.

                Ela então nos contou sua aflição:

 - Eu me juntei com um rapaz, há cerca de cinco anos...
 - Sei. Expressei minha atenção.
- E ele tem estado comigo esse tempo todo...
- Hum... Afirmei.
- Mas de um tempo para cá as coisas mudaram...

 Ela mal levantava os olhos, pensei: está apanhando do marido e está com vergonha.

 - Ele maltrata a senhora? Fui de forma leve para ajudá-la a falar.
- Não! Não é isso...
- Ele bebe, não trabalha? 

- Não, não...
- Tem envolvimento com algum crime, uso de drogas? Problemas com seus filhos?

 - Não temos filhos. Não nada disso...Ele é trabalhador, boa pessoa, por isso gosto muito dele.
E quando meu repertório foi acabando e a mulher não dizia o problema, ela se superou:
- Sabe o que é? Quando a gente se juntou ele prometeu que sempre ia FAZER AQUILO comigo e agora passa muito tempo e ele não faz e eu quero REGISTRAR UMA OCORRÊNCIA, pode?

                 Uma empatia por aquela mulher me envolveu – Mas não nego: uma vontade grande de rir também. Achei-a inocente em sua pretensão e olhei minha colega e ambas sorrimos com ternura e voltamos para ela:

- Olha não há crime em ele não querer fazer sexo com a senhora. Aqui a gente trabalha com crime. E isso não é crime...

- Mas ele prometeu! Insistia a mulher, que estava convicta que isso era caso de polícia.
- Explicamos que isso era algo natural da pessoa e não uma obrigação imposta pela lei, ao menos no Brasil, não.

                 Baixou a cabeça, mas não se rendeu e questionou:
- E o PROCON resolve?

 Eu e minha amiga, em coro lhe desapontamos:
- Nesse caso, nem o PROCON dá jeito!

Paty

5 comentários:

  1. Oi Paty e seguidores deste espaço quase lúdico.
    Primeiro, perdão pela demora em trazer novos textos...
    Paty, sagaz seu texto parabéns!!!!!! Cada coisa que aparece num plantão, não mesmo? Fique sabendo que na polícia é só lá que há este privilégio he he
    Realmente o brasileiro se comove mais com julgamentos de crimes graves como os que citou, também, a mídia dá um empurrãozão, não é mesmo? Eu considero isso bom. Porque acredito que a pena/julgamento/processo são instrumentos que estão além de punir o autor, servem também para incutir nas cabeças dos candidatos a criminosos um temor de ficar preso. Cadeia não é legal.
    Até curto quando o apresentador do jornal fala assim: “... e estará sujeito a uma pena de 20 a 30 anos”. Os benefícios que ensejarão liberdade breve não são falados, nem devem... nem eu deveria estar falando disso aqui..... (deu vontade de escrever de novo).

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  2. Heheheee....boa história!

    Sei de um caso(ou será causo?)de um cara que queria registrar uma ocorrência porque havia sentido cheiro de preservativo lá nas partes baixas da esposa.... só doideira!

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  3. Puxa vitão, serio??? Que louco! Foi vc que atendeu no balcão. Lili

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